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Opinião

Professor mal formado custa caro ao país

Mais da metade dos formandos em cursos EAD avaliados pelo Enade saiu de graduações com desempenho considerado insatisfatório
Coluna Opinião
27/05/2026 | 16:40

A formação dos futuros professores brasileiros voltou a acender um sinal de alerta. Os resultados do Enade das licenciaturas, divulgados pelo Ministério da Educação na semana passada, revelam que uma parcela expressiva dos estudantes que estão prestes a entrar nas salas de aula domina de forma insuficiente o próprio campo em que deverá ensinar.

A avaliação alcançou 4.948 cursos das redes pública e privada. Desse total, 1.314 eram de educação a distância. Foi justamente nessa modalidade que apareceu o quadro mais preocupante. Entre os cursos EAD avaliados, 51,9%, o equivalente a 685 graduações, receberam conceitos 1 e 2 em uma escala que vai de 1 a 5. Nas instituições particulares, 52,9% ficaram nessa faixa insatisfatória. Nas universidades públicas, o índice também foi alto, 47,2%. Nos cursos presenciais, embora o desempenho seja melhor, 28,8% tiveram notas 1 ou 2.

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O dado ganha peso ainda maior quando se observa o número de formandos. Cerca de 53% dos concluintes de licenciaturas, ou 155,5 mil estudantes, saíram de cursos a distância com avaliação insatisfatória. Dentro desse grupo, 97,5%, o equivalente a 151,7 mil alunos, estavam matriculados na rede particular.

As áreas mais sensíveis da formação escolar também exibem fragilidade. Entre os formados por EAD em letras, com habilitação em português-inglês, e matemática que fizeram o exame, apenas 33% demonstraram conhecimento acima do básico. Só a licenciatura em música teve resultado pior. Mesmo no ensino presencial, o desempenho está longe de ser confortável. Em português-inglês, 57% superaram o nível básico. Em matemática, 53%.

O problema não é lateral. Português e matemática sustentam o aprendizado nas demais disciplinas e influenciam diretamente a trajetória escolar dos alunos. O Brasil, no entanto, permanece com desempenho baixo nas duas áreas e avançou pouco nas últimas décadas.

Entre 2000 e 2022, a pontuação brasileira no Pisa subiu de 396 para 410 em leitura e de 334 para 379 em matemática. A média da OCDE ficou próxima de 500 pontos nas duas áreas. No mesmo período, o Chile, país vizinho, avançou de 410 para 448 em leitura e de 384 para 412 em matemática.

O Ministério da Educação tomou algumas providências. Em maio de 2024, uma diretriz proibiu licenciaturas totalmente a distância e estabeleceu que pelo menos 50% da carga horária deve ser presencial. As novas regras, porém, ainda não entraram em vigor. O Enade das licenciaturas também passou a ser aplicado todos os anos, e não mais a cada três anos.

As medidas são necessárias, mas insuficientes. Para elevar a qualidade da formação docente, é preciso também diversificar o financiamento das universidades públicas e fortalecer sua capacidade de oferecer cursos melhores.

O próprio Enade precisa ganhar precisão como instrumento de monitoramento. O exame deveria ter algum impacto na vida acadêmica dos formandos e incorporar outros indicadores, como taxas de evasão e trajetória dos egressos, para medir de forma mais realista a qualidade de cada curso.

O país precisa romper o círculo vicioso em que alunos mal formados chegam ao ensino superior, tornam-se professores com formação frágil e reproduzem deficiências na educação básica. A boa formação docente é um dos fatores mais decisivos para melhorar os indicadores de aprendizagem. Sem professores mais bem preparados, o Brasil seguirá tentando corrigir no fim da linha um problema que nasce na base.