A conversa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump terminou menos como uma reunião de decisões e mais como uma etapa preparatória para novas conversas. Em três horas, não saiu acordo comercial, não houve solução para as tarifas e também não apareceu anúncio concreto sobre minerais críticos. O saldo ficou restrito à formação de grupos de trabalho e à promessa de negociações futuras. Em outro ambiente, seria pouco. Depois dos choques acumulados entre Brasil e Estados Unidos em 2025, já pode ser lido como algum avanço.
No ano anterior, Trump havia imposto tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, em meio a uma ofensiva com tom de chantagem contra aquilo que descrevia como perseguição a Jair Bolsonaro e abuso de poder do Supremo Tribunal Federal. Também havia pressões envolvendo crime organizado e atritos recentes entre autoridades policiais brasileiras e americanas. A reunião não eliminou essas divergências. O que fez foi retirar parte da tensão do campo mais inflamado e devolver o diálogo a uma mesa minimamente negociável.

Nada ali foi improvisado. Trump chamou Lula de “dinâmico”, depois de “bom homem” e “inteligente”. Lula afirmou ter deixado o encontro “muito satisfeito” e condensou o resultado político numa frase bastante reveladora. “A fotografia vale muito”. Personagens com carga ideológica mais pesada ficaram fora da cena. Marco Rubio não esteve presente por razões fortuitas. Celso Amorim, ideólogo da política externa petista, e Rosângela da Silva, primeira-dama de perfil ativista, ficaram ausentes por cálculo. O espaço foi ocupado por quadros da área econômica. Também não se viu o tipo de espetáculo midiático que Trump costuma montar para pressionar aliados e adversários. A diplomacia brasileira conseguiu impedir que a Casa Branca virasse arena.
A tal “química” entre os dois funcionou, e não é tão difícil entender por quê. Jair Bolsonaro costuma ser chamado de “Trump tropical”, mas há um sentido em que Trump também pode ser visto como o “Lula americano”. As origens e os caminhos ideológicos de ambos são radicalmente distintos, mas os dois apostam em lideranças personalistas, performáticas, carregadas de vínculo emocional com “o povo”, narrativas de perseguição, divisões moralizantes, relação ambígua com as instituições e gosto por intervenção. Como diz o vulgo, “boi preto conhece boi preto”. Ainda assim, os dois também são mais pragmáticos, ou talvez mais amorais, do que seus seguidores costumam admitir.
Foi essa faceta que prevaleceu. Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes e Irã não dominaram a pauta. O tema central foram os minerais críticos. Os Estados Unidos tentam diminuir a dependência da China em terras raras e outros insumos estratégicos. Lula foi à Casa Branca disposto a abrir diálogo, mas também tentando escapar de duas armadilhas. A primeira, entregar exclusividade aos americanos. A segunda, manter o Brasil no papel antigo de exportador primário de baixo valor agregado. A equação é sensível. O País precisa de capital, tecnologia e escala industrial. Ao mesmo tempo, não pode permitir que a nova corrida mineral apenas repita velhas formas de dependência.
As tarifas continuam sendo o ponto mais delicado. A criação de um grupo de negociação reduz a pressão imediata, mas a investigação comercial americana permanece em curso. O Planalto conquistou uma mesa. Não conquistou garantia.
Para o presidente Lula, o resultado foi razoável. Para o candidato Lula, foi melhor ainda. A viagem interrompeu a narrativa de fragilidade aberta pelas derrotas recentes no Congresso e devolveu ao petista a imagem de interlocutor direto da Casa Branca. Também dificultou a tentativa do bolsonarismo de tratar Trump como um patrimônio simbólico exclusivo da direita brasileira. Ainda assim, é preciso medida. Fotografia não ganha eleição. Inflação, segurança, corrupção e desempenho econômico têm peso muito maior.
Lula deixou Washington com algo útil, embora provisório. Ganhou tempo. Tempo para negociar tarifas, administrar atritos e explorar o interesse renovado dos Estados Unidos pelos minerais brasileiros. Tempo para tentar converter uma relação que poderia ser hostil em uma relação administrável. Com Trump, porém, estabilidade costuma durar pouco. A qualquer momento, ele pode voltar ao discurso duro, empurrado por interesses comerciais, pela disputa com a China ou pela própria instabilidade do trumpismo.
Para Lula, a reunião já partia de uma posição confortável. Se obtivesse concessões de Trump, sairia como “estadista global”. Se fosse constrangido, poderia se apresentar como “guardião da soberania”. Como nada disso ocorreu plenamente, tentará vestir os dois papéis ao mesmo tempo. O risco é outro. Se os resultados concretos não aparecerem, o eleitor pode perceber que ele talvez não seja nem uma coisa nem outra.