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Erick Pereira

Sofrimento visível

Confira a coluna de Erick Pereira deste sábado 18
Erick Pereira
18/05/2024 | 07:01

Século 21, mas ainda padecemos de fobias ridículas, se não fossem mortais. Comecemos pelo risco: de ser injuriado, perseguido, castigado, desonrado, humilhado, ferido ou morto. Riscos que o outro ou o diferente corre, sem que deles sequer nos indignemos, apesar de percebidos num encadeamento de contextos saturados de ódios que discriminam, matam ou provocam danos à saúde das vítimas – depressão, alcoolismo, dependência de drogas, suicídio.

Foi há apenas 34 anos que a luta da população LGBT venceu uma longeva batalha: a OMS retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID). Ontem, 17 de maio, Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, foi celebrado em mais de 130 países como um marco dos direitos humanos para todos.

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Sofrimento visível - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A evolução sexual, como expressão cultural e biológica da natureza humana, segue seu processo conforme as peculiaridades da época, civilização, visão de mundo: desde a procriação dissociada da atividade sexual; o livre arbítrio para a criação da própria identidade sexual; o casamento entre casais do mesmo sexo; a criminalização da LGBTfobia como crime de racismo; até um modo de vida para além do binarismo sexual e de gênero, e a própria subversão da forma anatômica binária dominante. Ao pensarmos a humanidade como devendo ser heterossexual exclusiva, defendemos um ideário hipócrita que aprisiona, medicaliza, discrimina e mata. Oscar Wilde, que padeceu horrores ao desafiar a sociedade com sua homossexualidade, evocou o velho truísmo de que o verdadeiro sofrimento do mundo é mesmo o visível, não o invisível.

Não são poucos os que deliram com a desagregação da vida familiar pelo estímulo acanhado das leis e provimentos do Estado; com ameaças à autopreservação da espécie pelo afrouxamento das antigas restrições que já disciplinaram a vida sexual conforme dogmas religiosos; com a redução dos controles civilizacionais nas nossas inclinações naturais; e, pasmem, até com a eclosão de desregramentos morais provocados pelos shows de Madona e Pabllo Vittar. Também não são poucos os que temem as próprias inclinações e se aliam aos ofensores – suas ambiguidades e resistências apenas refletem um equilibrismo, a tormentosa angústia entre o conservadorismo dos padrões hegemônicos e a ruptura da dissidência.

Mas passar da crítica para atos homofóbicos e violentos é concordar em aniquilar a subjetividade, o desejo e os corpos divergentes, acatar o triste ressurgimento de leis e projetos de lei em prol de políticas antigênero. Parece não bastar o fato de que, pelo 15º ano consecutivo, o Brasil detém a degradante marca de ser o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo.

Sempre haveremos de conviver com movimentos de reivindicações pela ampliação de direitos fundamentais. Afinal, a diversidade é componente da humanidade, e proteger a integridade de seres que escapam à norma e apenas desejam realizar seus projetos de uma vida boa é avanço civilizacional devido e justo. E isso requer bem mais que os benefícios da retórica, do direito e da tolerância empática: políticas públicas igualitárias são imprescindíveis pois ajudam na reconciliação das diferenças, amenizam o sofrimento visível e salvam vidas.