Faz um longo tempo, a culminar com a criação do 8 de março como símbolo da mobilização política das mulheres contra as desigualdades de gênero, que se apela para a valorização do significado – muitos preferem “ressignificado” – dos seus papéis sociais. Refiro-me ao gênero mulher, hoje finalmente vinculado às construções sociais que transcendem aspectos naturais ou biológicos, fato que felizmente independe da vontade do narcisista mor do mundo. Afinal, mulher é construção social, como bem observou e vivenciou Simone de Beauvoir, inspirando estudos que até hoje se propalam pelo mundo.
A inspiração para a homenagem segue bela e estimulante, valendo lembrar as lutas da francesa Olympe de Gouges, guilhotinada após haver reivindicado o “direito feminino a todas as dignidades, lugares e empregos públicos segundo suas capacidades” na “Declaração dos Direitos da Cidadã”; ou das 130 tecelãs norte-americanas igualmente tornadas mártires num 8 de março, após haverem iniciado a primeira greve conduzida por mulheres em prol da melhoria das condições de trabalho numa fábrica; ou das operárias têxteis russas, vanguarda da Revolução de Fevereiro.

Apesar do ativismo de organizações dos direitos das mulheres e da crescente conscientização decorrente das transformações sociais e culturais vividas por diversas sociedades ao longo dos anos, persistem diferenças. Das fábricas às glamurosas mecas do cinema, do trabalho doméstico até os postos mais altos na hierarquia do mundo corporativo, persistem diferenças.
É fato que nem a proximidade com o poder resiste em retratar as mulheres de modo desfavorável. Basta uma lida superficial nos tópicos das redes sociais para ver como elas são tratadas, reforçando as associações do feminino à culpa, à erotização, à passividade e à sujeição na esfera familiar em sociedades patriarcais. Quando detentoras de poder ou de segredos políticos, as mulheres têm que lutar contra as expectativas culturais impostas desde a sua formação, não sendo imunes às críticas e desafios, especialmente no concernente aos métodos de negociação pouco competitivos ou depreciativos das próprias habilidades, às concessões ao medo de visibilidade – ser vista e ser ouvida – e à eterna lealdade para com os parceiros homens.
As trajetórias de Angela Merkel, Kamala Harris, Ursula von der Leyen e Claudia Sheinbaum, entre outras líderes de dimensão internacional, dizem muito. Na outra ponta, onde figuram a maioria das mulheres, deparamo-nos com um contrassenso às décadas de militância e aos demais avanços civilizatórios: homens e mulheres ainda têm que lutar contra construções machistas de violência e por leis específicas protetoras que tornem realidade a igualdade entre os sexos. É frustrante saber que 140 mulheres são vítimas de feminicídio todos os dias (ONU Mulheres).
É difícil ser otimista. Sandra Day O’Connor, a primeira mulher nomeada para a Suprema Corte dos EUA, constatou: “A aquisição de poder requer que se aspire ao poder, que se acredite que o poder é possível. Quando as mulheres alcançam o poder e o exercitam bem, as barreiras caem. É por isso que sou otimista. Quando a sociedade vê o que as mulheres podem fazer, quando as mulheres veem o que as mulheres podem fazer, haverá ainda mais mulheres fazendo coisas – e todos nós ficaremos melhores por isso.” Todos nós.