Se pudéssemos escolher em meio às nossas desigualdades uma que torna difícil a dispensa e o consolo, seria a educação. Quando nos projetamos no competitivo cenário global, o abismo se aprofunda, tal qual uma criança culturalmente atrasada e oriunda de uma escola decadente se sairia caso fosse repentinamente inserida numa escola privada de elite. Já falei sobre o tema, mas não custa insistir – hoje é Dia do Professor.
“Professores para que?” Formulada em 1963 por G. Gusdorf, quando a TV despontava como um poderoso e sedutor meio de comunicação, tal pergunta trazia à baila a preocupação do lugar do professor em época de saltos tecnológicos. O que diria hoje esse esquecido filósofo e professor francês, cujo pensamento tradicional apontava para o homem enquanto um ser essencialmente inacabado e necessitado de um outro para orientá-lo? Hoje, quando as modernas tecnologias estão devorando até as profissões qualificadas, resta algum espaço para o professor como um facilitador de saberes, um profissional que procura despertar os seus alunos para a consciência de sua verdade singular?
Difícil não ser cético numa era de (des)educação em massa que não apenas desestimula o ingresso na profissão, mas a avilta, bem como deprecia a relação de pessoa a pessoa professor e aluno. Prefiro pensar que a profissão ainda é essencial a qualquer projeto que pretenda resgatar uma população de crianças e jovens fadados a evasão escolar, expondo-os às oportunidades conforme seus anseios e capacidades. Prefiro pensar que o professor ainda é essencial na sua humana capacidade de transmitir valores, estimular a criatividade e o pensamento crítico e analítico dos seus alunos.
Penso que tais aspectos sensíveis ainda fazem a diferença, pois apenas a parte funcional do conteúdo escolar tem sido, e cada vez mais, confiada à IA – já estão disponíveis inúmeras plataformas (LLMs ou Large Language Models) que permitem que alunos assimilem conceitos e dados acríticos de forma personalizada e consoante suas capacidades. Professores e alunos de escolas de países desenvolvidos, bem como de algumas escolas privadas de países em desenvolvimento já dominam a informática, a robótica e esses modelos de aprendizado profundo, fato que reforça as desigualdades abissais presentes na educação global.
Apesar desse contexto, segundo Paul Krugman, “existem certas coisas que a educação não pode fazer”. Uma vez superada a ideia de que apenas os empregos para trabalhadores não qualificados são eliminados pelos céleres avanços tecnológicos, observa-se que ter um diploma universitário não mais implica a garantia de um bom emprego pois pode representar o ingresso em atividades fadadas à obsolescência ou que não pagam salários condizentes com o status de classe média. Krugman sustenta que não é apenas dando diplomas que vamos promover prosperidade compartilhada e garantir as coisas essenciais aos cidadãos, a exemplo da restauração do poder de renegociação que o trabalho perdeu nas últimas décadas.
Tais observações me trazem à memória um reencontro com uma brilhante ex-aluna. Atuando agora na área de gastronomia e dona do próprio negócio, a chef abrandou o meu desapontamento inicial. Percebi que, para ela, a alegria de criar receitas, combinar sabores e agradar paladares deve ultrapassar a satisfação de escrever peças assépticas. Agora, talvez se sinta no controle pois, quem sabe, percebe que algoritmos tolhem sua criatividade, sua natureza. Quando se dispõe de coisas como o ChatGPT, fica-se carente da sensação de livre-arbítrio. Mestres não repetem verdades prontas; mostram caminhos e avivam sentimentos de esperança na humanidade.
Erick Pereira é professor e advogado
