É, sem dúvida, alvissareira a notícia da retomada dos investimentos da Petrobras no Rio Grande do Norte. O Estado, convém lembrar, já ocupou posição de destaque como maior produtor de petróleo em terra do País, condição que por décadas sustentou parte relevante da economia potiguar, com geração de empregos, renda e receitas de royalties.
Esse protagonismo, no entanto, foi sendo gradualmente perdido ao longo dos anos. Com a descoberta e a priorização do pré-sal, a estatal redirecionou seus investimentos para outras regiões, esvaziando a atividade no RN. O resultado foi sentido em cadeia: retração econômica em municípios produtores, redução de postos de trabalho e queda nas transferências de royalties.

É importante ressaltar que o problema nunca foi a ausência de recursos naturais. Há, ainda hoje, campos em terra — muitos deles maduros, é verdade —, mas também um potencial significativo no mar, sobretudo com a chamada Margem Equatorial. O que faltou, ao longo do tempo, foram decisões estratégicas e políticas capazes de sustentar a continuidade dos investimentos.
Nesse contexto, o anúncio recente de perfuração de novos poços na Bacia Potiguar representa um movimento concreto e relevante. Trata-se de uma decisão da Petrobras respaldada por estudos técnicos e planejamento de longo prazo.
Ainda que o governo não explicite, o cenário internacional também pesa. Em um ambiente de instabilidades geopolíticas, com conflitos que afetam cadeias globais de energia, a busca por segurança energética tende a ganhar prioridade. Esse fator, ainda que não assumido oficialmente, ajuda a explicar a retomada do interesse por novas fronteiras exploratórias no País.
Mas é preciso cautela. E, nesse ponto, ganham relevo as ponderações do ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates. Sem negar o caráter positivo do anúncio, ele lembra que não se trata de um ponto de partida, mas da continuidade de um processo que já vinha sendo estruturado.
Mais importante: que não basta anunciar investimentos para que os benefícios se materializem. A exploração ainda está em fase inicial. Não há, neste momento, volumes certificados de reservas. A produção estimada — que pode chegar a 100 mil barris por dia — depende de confirmação técnica. Pode se concretizar, mas pode também se mostrar mais modesta.
Esse é um ponto central. O Rio Grande do Norte já se acostumou a conviver com anúncios grandiosos que, com o tempo, não se confirmam. O histórico recente é farto: hub aéreo que não se consolidou, zona de processamento de exportação que não saiu do papel, promessas de refinarias e outros projetos que ficaram pelo caminho. Expectativas foram criadas, mas não se converteram em resultados.
A diferença, agora, é que há um ativo concreto: o petróleo existe, os estudos avançaram e a Petrobras voltou a olhar para o Estado. Ainda assim, isso não garante, por si só, desenvolvimento.
Para que essa oportunidade se traduza em crescimento real, é indispensável que o Estado faça sua parte. E isso passa, прежде de tudo, pela qualificação da mão de obra, pela melhoria da infraestrutura, pela organização da cadeia produtiva e pela criação de um ambiente institucional capaz de atrair e reter investimentos.
Jean Paul Prates é direto ao apontar esse caminho. O impacto econômico não é automático. Empregos diretos na atividade offshore são limitados. O maior ganho está na cadeia indireta — serviços, logística, manutenção, transporte. Sem preparo local, esses benefícios podem simplesmente escapar, sendo absorvidos por outras regiões mais estruturadas.
Há, portanto, um desafio de coordenação. Em tempos não tão distantes, um anúncio dessa magnitude mobilizaria governo estadual, prefeituras, Assembleia Legislativa, setor produtivo — Fiern, Fecomércio RN, Sebrae — em torno de um plano estratégico. Seria natural a criação de um grupo de trabalho para mapear oportunidades, identificar gargalos e estruturar políticas públicas voltadas à maximização dos efeitos econômicos.
Hoje, infelizmente, esse tipo de articulação parece cada vez mais raro. A política, em muitos casos, se mostra mais preocupada com disputas eleitorais do que com projetos estruturantes. Falta, muitas vezes, senso de urgência e capacidade de transformar oportunidades em resultados concretos.
Esse é o risco. Que a notícia, embora positiva, se esgote no anúncio. Que o Estado não se prepare. Que os investimentos avancem, mas os benefícios não se espalhem de forma consistente pela economia local.
Seria um erro grave. E mais do que isso, uma oportunidade perdida.
A retomada da Petrobras no Rio Grande do Norte pode, sim, inaugurar um novo ciclo. Pode significar geração de emprego, aumento de arrecadação, fortalecimento da cadeia produtiva e atração de novos investimentos. Mas nada disso é automático.
Exige planejamento, articulação e vontade política. Exige que o Estado, independentemente de quem esteja à frente, faça o dever de casa.
A oportunidade está posta. Transformá-la em desenvolvimento concreto dependerá, sobretudo, das escolhas que serão feitas a partir de agora.