O Rio Grande do Norte tem hoje 47 mil pessoas à espera de uma cirurgia no Sistema Único de Saúde. São quase 47 mil vidas submetidas à incerteza, à dor prolongada e à ausência de resposta do Estado. É um número que, por si só, já seria alarmante. Torna-se ainda mais grave quando comparado ao passado recente: em 2023, essa fila era de 27.492 pacientes. Ou seja, em pouco tempo, houve um salto de quase 20 mil pessoas.
A explicação apresentada pela Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) é que o crescimento da fila decorre, em grande parte, da implantação de um sistema único de regulação, que unificou listas antes dispersas em hospitais e secretarias municipais. Ou seja, a demanda já existia, mas não era plenamente visível. A transparência, nesse caso, teria revelado o tamanho real do problema.

O argumento faz sentido do ponto de vista técnico. Mas não resolve o problema do ponto de vista prático. Tornar a fila visível não a reduz. Organizar o dado não trata o paciente. O sistema pode ser mais transparente, mas continua sendo incapaz de oferecer o que se espera dele: atendimento em tempo razoável.
Em sete anos, o Estado afirma ter ultrapassado 500 mil cirurgias eletivas. São números expressivos, que indicam esforço e capacidade operacional. Mas, ao mesmo tempo, a fila cresce. Produz-se mais, mas não se resolve o passivo. O sistema gira, mas não avança.
Isso revela um problema estrutural. Não se trata apenas de volume de cirurgias, mas de gestão de fluxo. A lógica adotada até aqui parece ser reativa: amplia-se a oferta à medida que a demanda explode, sem que haja controle efetivo sobre a entrada de novos casos. O resultado é previsível — a fila nunca diminui de forma consistente.
E há um agravante que torna o cenário ainda mais preocupante: o próprio Estado admite que não consegue estimar o tempo de espera. Cada paciente entra em uma fila sem saber quando será atendido. Não há prazo, não há cronograma, não há prioridade clara. Em qualquer política pública, isso já seria problemático. Na saúde, é inaceitável.
O governo também aponta avanços, como a interiorização dos serviços e a ampliação de cirurgias ortopédicas fora da Região Metropolitana de Natal. De fato, há mudança de desenho. Hospitais regionais passaram a absorver parte da demanda, reduzindo a pressão sobre a capital. Mas, novamente, o dado central permanece: mesmo com essa expansão, a fila aumentou.
Isso exige uma reflexão mais profunda. O problema não está apenas na capacidade de realizar cirurgias, mas na ausência de um plano capaz de inverter a tendência. Não há metas públicas claras de redução da fila. Não há um horizonte de normalização. Não há transparência sobre quais critérios definem a ordem de atendimento. O sistema opera, mas não comunica. E, ao não comunicar, reforça a sensação de abandono.
Há também uma dimensão que não pode ser ignorada. Filas não são neutras. Elas afetam mais intensamente quem depende exclusivamente do sistema público. Quem pode pagar, resolve. Quem não pode, espera. E espera sem garantia. Isso cria, na prática, uma divisão silenciosa entre os que têm acesso e os que permanecem à margem.
A pergunta que se impõe, ainda que raramente seja verbalizada, é direta: essa fila teria esse tamanho se fosse composta majoritariamente por pessoas com poder político ou econômico? A resposta não precisa ser dita. Basta observar como o sistema reage quando a pressão vem de cima.
Diante de quase 47 mil pessoas aguardando por uma cirurgia, não há mais espaço para explicações administrativas. O diagnóstico está posto há anos. A diferença é que, agora, ele está quantificado com mais precisão. E isso, ao contrário de aliviar a responsabilidade, a amplia.
A fila não é apenas um indicador de gestão. É um retrato da capacidade do Estado de cumprir sua função mais básica. Enquanto o poder público se limitar a organizar números, sem enfrentar o problema em sua essência, o cenário seguirá o mesmo: mais cirurgias realizadas, mais pacientes entrando e uma fila que cresce, silenciosamente, como se fosse inevitável.
Não é.
O Rio Grande do Norte não convive apenas com uma fila de cirurgias — convive com um modelo que passou a aceitar o atraso como regra, a espera como método e a urgência como algo secundário. Enquanto esse cenário continuar sendo tratado como um dado técnico, e não como uma crise que afeta diretamente milhares de vidas, o Estado seguirá distante de cumprir sua função mais básica: atender quem precisa, quando precisa. Os números estão aí, à vista. A realidade também. Falta, sobretudo, a decisão de enfrentá-la.