A decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN) de multar o Instituto Media e o portal O Potengi por pesquisa considerada tendenciosa contra Allyson Bezerra vai além de um caso isolado. O julgamento envia um recado importante em meio ao avanço de levantamentos frágeis, mal construídos e, em alguns casos, aparentemente produzidos não para medir a opinião pública, mas para tentar influenciá-la.
O centro da controvérsia foi a inclusão de perguntas sobre uma operação da Polícia Federal envolvendo Allyson. Os questionamentos apareceram apenas em relação ao ex-prefeito de Mossoró, sem tratamento semelhante aos demais nomes do cenário eleitoral.

Durante o julgamento, o relator, juiz Daniel Maia, afirmou que a pesquisa foi conduzida com “desprezo dos deveres de neutralidade e imparcialidade” exigidos nesse tipo de levantamento. Segundo ele, houve “indagações manifestamente tendenciosas”, com “inequívoco potencial de influenciar negativamente a percepção dos entrevistados” sobre determinado pré-candidato, comprometendo a credibilidade da pesquisa.
A advertência mais forte veio quando o magistrado afirmou que pesquisas como essa têm sido usadas “mais como peça publicitária já agora no período de pré-campanha”, algo que, segundo ele, precisa ser “terminantemente coibido”.
O alerta é necessário. Quando uma pesquisa abandona a neutralidade, direciona perguntas ou cria associações negativas apenas contra um candidato, deixa de ser instrumento de informação e passa a funcionar como arma política.
O TRE aplicou multa de R$ 53.205 e responsabilizou tanto quem produziu quanto quem divulgou o levantamento. O ponto é relevante porque deixa claro que a responsabilidade não recai apenas sobre o instituto, mas também sobre quem coloca em circulação material capaz de interferir no debate eleitoral sob aparência de informação técnica.
Pesquisa eleitoral influencia percepção, movimenta alianças, altera estratégias e pode afetar diretamente o ambiente democrático. Quando feita com rigor técnico, é ferramenta legítima. Quando produzida sem método, transparência ou neutralidade, transforma-se em propaganda disfarçada de ciência.
O TRE-RN já vinha demonstrando atenção ao tema. Antes mesmo desse julgamento, a Justiça Eleitoral havia suspendido pesquisas neste ano por problemas como falta de transparência sobre recursos, inconsistências financeiras, falhas metodológicas, ausência de informações sobre plano amostral e dúvidas sobre compatibilidade entre o registro e o material efetivamente divulgado.
Institutos sérios não devem temer fiscalização. Ao contrário: deveriam defendê-la. O controle protege quem trabalha corretamente e ajuda a separar pesquisa de encomenda, informação de marketing político.
O Brasil já possui regras para registro de pesquisas, com exigência de informações sobre contratante, metodologia, plano amostral, margem de erro e origem dos recursos. Mas a experiência mostra que isso ainda é insuficiente. É preciso avançar na clareza dos critérios, especialmente sobre composição das amostras, ordem das perguntas, transparência dos questionários e compatibilidade entre a metodologia registrada e a execução real.
Também é indispensável acelerar as decisões da Justiça Eleitoral. Uma pesquisa enviesada divulgada hoje não pode receber resposta efetiva apenas semanas depois. Quando isso ocorre, o levantamento já circulou, já influenciou conversas, abasteceu grupos políticos e produziu efeitos.
Outro ponto que merece atenção é a compatibilidade financeira dessas pesquisas. Um levantamento estadual sério, com amostragem adequada, equipe qualificada, supervisão e responsabilidade técnica, dificilmente custa menos de R$ 40 mil no mercado potiguar. Quando aparecem pesquisas estaduais registradas por valores muito abaixo disso, é legítimo questionar se o levantamento é tecnicamente precário ou se existem custos ocultos.
A mesma lógica vale para os contratantes. É preciso verificar se blogs, portais ou empresas que aparecem formalmente como financiadores possuem capacidade econômica compatível com esse tipo de contratação. Não se trata de presumir irregularidade, mas de exigir transparência. Se há alguém financiando indiretamente uma pesquisa, o eleitor tem o direito de saber.
O financiamento obscuro de levantamentos, se existir, pode ser tão grave quanto a manipulação metodológica. Nos dois casos, o eleitor recebe uma informação apresentada como técnica, mas potencialmente produzida para atender interesses políticos.
O TRE-RN acerta ao dar esse recado. E provavelmente precisará ir além. A tendência é que a enxurrada de pesquisas mal explicadas, metodologicamente frágeis ou politicamente orientadas aumente à medida que 2026 se aproxima. Se a régua aplicada agora for mantida, novas punições deverão aparecer.
O Grupo Agora RN, responsável pelos jornais Agora RN e O Correio de Hoje e pelo instituto Exatus, defende esse rigor. A Exatus foi criada inspirada no modelo adotado por grandes grupos de comunicação, como a relação entre o Datafolha e a Folha de S.Paulo. A lógica é simples: informação de qualidade exige instrumentos próprios, independentes e tecnicamente responsáveis.
Para um grupo de comunicação, credibilidade é patrimônio. Um instituto ligado a jornais não pode se permitir atalhos metodológicos ou manipulações, porque qualquer erro compromete não apenas uma pesquisa, mas a confiança construída diariamente junto ao leitor.
A democracia precisa de pesquisas. Mas precisa, sobretudo, de pesquisas sérias.