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Editorial

Descrença na política empurra jovens para longe das urnas

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 8
Redação
08/05/2026 | 06:15

Reportagem publicada por O Correio de Hoje, jornal impresso vespertino do Grupo Agora RN, aponta que o Brasil poderá registrar, nas eleições de 2026, o menor índice de participação eleitoral entre adolescentes de 16 e 17 anos desde 2014. Se confirmadas as estimativas do Instituto Lamparina e da Girl Up Brasil, apenas 1,6 milhão de jovens dessa faixa etária, no máximo, terão solicitado o título de eleitor até o fechamento do cadastro eleitoral (encerrado na quarta-feira). Isso representaria cerca de 27,6% da população brasileira de 16 e 17 anos — abaixo dos 33,7% registrados em 2014, dos 31% de 2018 e muito distante dos 41,2% observados em 2022.

A princípio, alguém poderia tratar o dado como simples oscilação estatística. Não é. O que está por trás dessa queda revela algo mais profundo: um progressivo distanciamento dos jovens da política institucional e da ideia de participação coletiva como instrumento de transformação social.

URio Grande do Nortea foto Fabio Rodrigues Pozzebom ABr
Descrença na política empurra jovens para longe das urnas - Foto: Rodrigues Pozzebom ABr

É verdade que fatores burocráticos ajudam a explicar parte da retração. Em 2022, o processo de emissão do título teve forte digitalização e foi acompanhado por campanhas massivas nas redes sociais, impulsionadas por artistas, influenciadores e movimentos sociais. Agora, a exigência de biometria presencial pode ter dificultado a adesão. Mas seria simplista atribuir a queda apenas a obstáculos técnicos.

O contexto nos mostra que a juventude brasileira vive hoje sob uma sensação crescente de incerteza. Muitos jovens enxergam um mercado de trabalho hostil a quem deseja uma primeira oportunidade, dificuldade de ascensão social, empregos informais, baixa renda e poucas perspectivas concretas de futuro. A promessa de que estudo, esforço e qualificação necessariamente levariam a oportunidades mais amplas já não parece tão convincente para uma parcela significativa dessa geração.

Quando o horizonte coletivo se torna nebuloso, a política passa a ser vista não como solução, mas como parte do problema. E isso ajuda a entender por que tantos adolescentes simplesmente não se sentem estimulados a participar.

Há também um evidente problema de formação cidadã. O Brasil falhou, ao longo de décadas, em construir uma cultura sólida de educação política e participação democrática nas escolas. Fala-se muito em cidadania de maneira abstrata, mas pouco se ensina sobre funcionamento das instituições, importância da representação política, orçamento público, direitos civis ou mecanismos de participação social.

Resultado: muitos jovens chegam à idade eleitoral sem desenvolver qualquer vínculo concreto com a política. Não a enxergam como espaço de pertencimento, mas como um ambiente distante, hostil e frequentemente dominado por conflitos que pouco dialogam com seus dilemas reais.

A polarização dos últimos anos aprofundou ainda mais esse afastamento. O ambiente político brasileiro tornou-se marcado por radicalização permanente, embates ideológicos agressivos e uma lógica de confronto contínuo que tende a fidelizar militâncias mais apaixonadas, mas afasta quem busca discussão prática sobre futuro, oportunidades e qualidade de vida.

Boa parte da juventude parece menos interessada em guerras ideológicas e mais preocupada com questões objetivas: emprego, renda, saúde mental, acesso à universidade, segurança, mobilidade social e estabilidade econômica. Quando o debate público se resume à disputa entre campos políticos que frequentemente se acusam mutuamente enquanto problemas concretos permanecem sem solução, cresce a sensação de que “tudo é mais do mesmo”.

A crise de representatividade também pesa. Os jovens têm dificuldade de se enxergar nas lideranças políticas tradicionais. O sistema político brasileiro continua envelhecido, pouco renovado e frequentemente incapaz de dialogar com as linguagens, pautas e expectativas das novas gerações. Isso não significa ausência de interesse dos jovens por causas coletivas. Pelo contrário. Muitos participam ativamente de debates sobre meio ambiente, diversidade, tecnologia, saúde mental e direitos sociais. O problema é que nem sempre enxergam a política institucional como caminho eficaz para transformar essas pautas em políticas públicas.

Esse distanciamento, porém, traz riscos relevantes para a democracia. Quando as novas gerações deixam de acreditar na política como mecanismo legítimo de resolução de conflitos e demandas sociais, abre-se espaço para soluções simplistas, personalistas e autoritárias. A descrença prolongada nas instituições costuma alimentar a ideia perigosa de que problemas coletivos podem ser resolvidos fora da mediação democrática.

A história mostra que sociedades politicamente desmobilizadas se tornam mais vulneráveis a discursos antidemocráticos, salvacionismos e aventuras autoritárias. Democracias não se sustentam apenas por regras formais; dependem também de participação, confiança institucional e renovação geracional.

Por isso, o baixo engajamento eleitoral dos jovens não deveria preocupar apenas partidos ou candidatos. Trata-se de uma questão estrutural para o futuro do país. Reconectar a juventude à vida pública exige mais do que campanhas de incentivo ao título eleitoral em ano de eleição. Exige reconstruir perspectivas de futuro, fortalecer a educação cidadã, ampliar espaços de participação e tornar a política novamente capaz de dialogar com a realidade concreta das novas gerações.

Sem isso, o País corre o risco de formar uma geração que não apenas se afasta das urnas, mas que deixa de acreditar na própria democracia como instrumento de transformação coletiva.