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Editorial

Hidrogênio verde: o RN colhe o que plantou

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 24
Redação
24/04/2026 | 06:04

Quando um Estado faz o dever de casa com seriedade, de forma articulada e técnica, os resultados aparecem. O que se vê hoje no setor de hidrogênio verde potiguar não é fruto do acaso, é consequência de anos de trabalho consistente, de construção paciente de um ambiente favorável ao investimento e de uma parceria real entre governo e setor produtivo.

Dias atrás, a Brazil Green Energy obteve aval do Idema para instalar em Areia Branca a primeira fábrica de hidrogênio verde e amônia verde em escala industrial do Estado — um empreendimento de R$ 12 bilhões, com 500 megawatts de capacidade instalada e produção estimada de 80 mil toneladas por ano. O projeto Morro Pintado foi apresentado na Hannover Messe 2026, a maior feira de tecnologia industrial do mundo, com empresas como Siemens, Deutsche Bahn e ThyssenKrupp Uhde na plateia. Não é qualquer vitrine.

Hidrogênio verde: o RN colhe o que plantou - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Hidrogênio verde: o RN colhe o que plantou - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Mas esse resultado não surgiu do nada. Ele é a colheita de uma preparação cuidadosa que inclui, entre outros marcos, a aprovação, em julho de 2025, do Marco Legal do Hidrogênio Verde e da Indústria Verde — tornando o Rio Grande do Norte o primeiro estado do Brasil a regulamentar o setor.

A lei criou um ambiente jurídico seguro para investidores, estabeleceu incentivos fiscais por meio do Regime Especial RNVerde, simplificou o licenciamento ambiental para projetos da cadeia do hidrogênio e criou mecanismos de governança com participação de universidades, setor produtivo e sociedade civil. Dois anos de debates e construção coletiva resultaram num arcabouço que dá previsibilidade — e previsibilidade é exatamente o que o capital privado busca antes de desembolsar bilhões.

O hidrogênio verde, vale explicar para quem ainda não está familiarizado com o tema, é um combustível produzido a partir da eletrólise da água usando energia exclusivamente renovável — solar, eólica ou hidrelétrica. Por não emitir gases poluentes nem na produção nem no uso, é considerado um dos vetores mais estratégicos da transição energética global. Pode ser usado em veículos, na produção de aço, de amônia e fertilizantes, no armazenamento de energia e na geração de eletricidade.

O mundo está correndo para dominar essa cadeia produtiva. O RN entrou nessa corrida com vantagens reais: é o estado com maior número de parques eólicos do Brasil, tem forte matriz solar e, agora, tem legislação pioneira.

Vale registrar que o setor já começa a ter presença concreta no território potiguar antes mesmo dos grandes projetos entrarem em plena operação. A fábrica da Mizu Cimentos, em Baraúna, será a primeira indústria do Brasil a usar hidrogênio verde como combustível — com uma planta de 1 megawatt e capacidade de 250 toneladas por ano, com investimento de R$ 43 milhões e previsão de operação até 2027. A Petrobras também tem uma planta em instalação no Estado. São sinais de que a cadeia produtiva não é apenas uma aposta no futuro: ela está sendo construída agora.

Nesse processo, a Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern) merece destaque especial. A entidade esteve presente em cada etapa relevante — na construção do marco legal, na articulação institucional com o governo estadual, na representação do Estado em feiras internacionais. Quando o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, afirmou que a licença do projeto Morro Pintado representa a consolidação do RN como polo de hidrogênio verde, não estava apenas celebrando. Estava reconhecendo um esforço conjunto que envolveu também universidades, o Idema, o Cerne e diversas secretarias estaduais. Essa é a receita: governo e iniciativa privada trabalhando na mesma direção, com objetivos compartilhados e papéis bem definidos. A articulação entre governo, indústria e academia foi decisiva para dar consistência ao projeto.

O que aconteceu no setor de hidrogênio verde deve, portanto, servir de espelho para outras áreas. O Rio Grande do Norte é um estado com riquezas abundantes e potenciais econômicos ainda amplamente inexplorados — da pesca e aquicultura ao turismo, do agronegócio à economia do mar, sem falar nas reservas minerais e na vocação industrial que começa a se consolidar.

Em todas essas frentes, o que faz diferença não é apenas a existência do recurso natural ou da vocação econômica. É a articulação política, a estratégia técnica, o investimento em regulamentação e em formação de capital humano. E, sobretudo, a disposição de construir parcerias duradouras entre o setor público e o privado.

A iniciativa privada não precisa de favor. Precisa de condições. Quando essas condições existem — segurança jurídica, infraestrutura, incentivos bem estruturados e interlocutores confiáveis —, o capital vem. Ele veio para Areia Branca. Pode vir para muitos outros cantos deste estado.

O hidrogênio verde potiguar é mais do que uma promessa energética. É uma prova de conceito de gestão pública séria. E provas de conceito, quando bem-sucedidas, merecem ser replicadas.