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Editorial

Escala 6×1 ameaça pequenos negócios

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 19
Redação
19/05/2026 | 05:10

A discussão sobre o fim da escala 6×1 parte de uma reivindicação social legítima. Trabalhar menos, descansar melhor e ter mais tempo para a família são objetivos civilizatórios. O problema começa quando uma pauta correta em sua inspiração passa a ser conduzida como se todos os setores, empresas e regiões do País tivessem a mesma estrutura econômica, a mesma margem de adaptação e a mesma capacidade de absorver custos.

Reportagem publicada pelo jornal O Correio de Hoje sobre a preocupação do superintendente do Sebrae-RN, Zeca Melo, toca no ponto central do debate. Zeca reconhece a legitimidade da discussão, mas alerta para o risco de uma mudança abrupta atingir justamente quem mais emprega no Rio Grande do Norte. Segundo ele, as pequenas empresas, que antes respondiam por cerca de 25% dos empregos formais no Estado, hoje concentram algo entre 36% e 37%, caminhando para 40% na iniciativa privada. “Quem emprega no Rio Grande do Norte é a pequena empresa”, afirmou. “A importância da pequena na geração de emprego do Rio Grande do Norte é flagrante, é incontestável.”

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Escala 6x1 ameaça pequenos negócios - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Esse dado deveria impor prudência. No RN, setores como comércio, serviços, turismo, hospedagem e alimentação dependem de funcionamento contínuo, escalas flexíveis e equipes enxutas. Em muitos pequenos empreendimentos, como pousadas, restaurantes, padarias, mercadinhos e lojas, não há departamentos separados nem folga operacional para reorganizar jornadas de forma imediata sem aumento de custo, perda de atendimento ou necessidade de novas contratações.

A Câmara dos Deputados discute propostas que substituem o limite atual de 44 horas por 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial. Também há propostas mais amplas, com jornada de 36 horas. O objetivo pode ser meritório, mas o método importa. Uma grande rede nacional tem mais condições de redistribuir escalas, investir em tecnologia e diluir custos. Uma pequena empresa do interior ou do litoral potiguar opera em outra realidade.

Os números reforçam a necessidade de cautela. No boletim citado pelo Correio, com base no Caged, o RN criou 1.127 empregos com carteira assinada em março de 2026, resultado de 22.128 admissões e 21.001 desligamentos. O estoque formal chegou a 552.162 vínculos. No mesmo levantamento, microempresas responderam por 2.024 novos postos no mês e, no acumulado do ano, micro e pequenas empresas somaram 4.205 vagas. Serviços, construção e comércio puxaram a geração de empregos, exatamente áreas sensíveis à mudança de escala.

A Fiern também pediu aos deputados federais do RN uma transição gradual, prevalência de acordos e convenções coletivas e vinculação da redução da jornada ao crescimento da produtividade. É um caminho mais responsável. A redução da jornada pode ser desejável como horizonte, mas precisa ser construída por setor, com negociação, tempo de adaptação e atenção especial às pequenas empresas.

O Brasil precisa melhorar a qualidade do trabalho. Precisa reduzir jornadas exaustivas e modernizar relações trabalhistas. Mas o Rio Grande do Norte também precisa proteger os negócios que sustentam sua base de empregos. A pressa eleitoral não pode atropelar a economia real.

Zeca Melo tem razão ao defender que o debate vá “mais para o centro”, seja gradual, setorial e amparado em produtividade. O fim da escala 6×1 não deve ser tratado como guerra entre trabalhador e empresário. O desafio é construir um modelo que amplie direitos sem destruir empregos, melhore a vida de quem trabalha sem inviabilizar quem emprega e reconheça que, no RN, qualquer mudança trabalhista séria passa necessariamente pela sobrevivência dos pequenos negócios.