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Editorial

Falta de medicamentos evidencia gargalos e cobra compromisso dos pré-candidatos

Confira o editorial do Agora RN desta quarta-feira 6
Redação
06/05/2026 | 06:14

De cada 10 medicamentos que deveriam ser ofertados na rede pública de saúde do Estado, apenas 6 estão à disposição da população. É isso que revela um levantamento apresentado pela Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa nesta semana. De acordo com o estudo, apenas 60% dos itens do componente especializado da assistência farmacêutica estão atualmente nas prateleiras da Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat).

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer o papel da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa, que cumpre sua função fiscalizadora ao trazer à tona dados concretos sobre a situação do abastecimento. O Parlamento, quando atua dessa forma, contribui não apenas para a transparência, mas para o diagnóstico de problemas estruturais que, muitas vezes, permanecem invisíveis no cotidiano burocrático do poder público.

Medicamentos UNICAT (35)
Falta de medicamentos evidencia gargalos e cobra compromisso dos pré-candidatos - Foto: José Aldenir

Sobre o fato em si, se forem confirmadas essas informações, o que se tem é um retrato duro, quase cruel, de um dos principais gargalos da gestão estadual: a saúde pública. E não se trata de um episódio isolado. Há poucas semanas, veio à tona o número igualmente alarmante de cerca de 47 mil pacientes aguardando por uma cirurgia no Estado. Agora, soma-se a isso a constatação de que o acesso a medicamentos — um dos pilares mais básicos do atendimento em saúde — também está comprometido.

A pergunta que se impõe é inevitável: por que isso acontece? As justificativas apresentadas passam por processos licitatórios em andamento, dependência de repasses federais e questões relacionadas à cadeia de distribuição. São fatores reais, sem dúvida. Mas não são novos. E é justamente aí que reside o problema.

Governar é, em essência, antecipar problemas previsíveis e estruturar soluções para enfrentá-los. Processos licitatórios não são eventos inesperados. Dependência de repasses federais tampouco é novidade. Oscilações na logística fazem parte da realidade de qualquer sistema público de saúde. Se esses fatores continuam a impactar de forma tão severa o abastecimento, e por tanto tempo, o que se revela não é apenas dificuldade operacional, mas falha de gestão.

É preciso dizer com todas as letras: por mais que haja boa vontade, por mais que existam esforços pontuais, o resultado apresentado é de um sistema que não consegue dar conta de uma das suas funções mais elementares. E isso, no campo da saúde, é especialmente grave.

Um governo pode falhar em muitos setores. Pode enfrentar dificuldades na infraestrutura, na educação, na segurança. Mas há um campo em que a margem para erro é mínima: a saúde. Porque ali não se trata apenas de política pública. Trata-se de vida.

Só entende a dimensão desse problema quem depende exclusivamente do SUS. Quem não tem plano privado, quem não tem alternativa. Para esse cidadão, a falta de um medicamento não é um dado estatístico. É a diferença entre tratar uma doença ou vê-la se agravar. É a diferença entre qualidade de vida e sofrimento. Em muitos casos, é a diferença entre viver e morrer.

Quando o Estado falha nesse ponto, não se trata apenas de ineficiência. Trata-se de algo mais grave. Trata-se de uma quebra de compromisso com a população, sobretudo com a parcela mais vulnerável.

Por outro lado, há um aspecto positivo — ainda que incômodo — nessa exposição. Esses dados vêm à tona em um momento que antecede uma sucessão estadual. E isso deveria, em tese, elevar o nível do debate público. Afinal, se há um setor que exige respostas urgentes e estruturadas, é o da saúde.

No entanto, o que se observa até aqui na pré-campanha é um cenário dominado por trocas de críticas, disputas narrativas e poucos sinais de propostas concretas. A pergunta permanece no ar: o que pensam os pré-candidatos sobre isso? Como pretendem enfrentar a fila de cirurgias? Como garantir o abastecimento regular de medicamentos? Qual é o plano?

Não se trata de um tema qualquer. Trata-se do centro do debate. E é sintomático que, diante de problemas tão evidentes, ainda falte clareza nas soluções apresentadas.

A falta de medicamentos não é um fato isolado. Ela se soma a uma série de outros problemas crônicos: falta de insumos em hospitais, superlotação, filas em corredores, dificuldades de acesso a exames e procedimentos. É um quadro que se repete, ano após ano, e que já não pode mais ser tratado como exceção.

Cabe à imprensa, ao Parlamento e à sociedade manter esse tema no foco. Não por conveniência, mas por responsabilidade. Relatar, questionar, cobrar. Porque, diante de fatos tão concretos e tão indignantes, o silêncio não é uma opção.

Afinal, como diz o senso comum — e, neste caso, com absoluta razão — saúde não é apenas prioridade. É necessidade básica. E quando ela falta, tudo o mais perde sentido.