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Editorial

Pré-candidatos no RN evitam temas espinhosos e questões estruturais do Estado aguardam respostas

Confira o editorial do Agora RN desta quarta-feira 22
Redação
22/04/2026 | 06:16

É verdade que o período oficial da campanha ainda não começou. Até por isso, não seria justo cobrar dos pré-candidatos ao Governo do Estado que apresentem planos de governo acabados e detalhados. Essa exigência só virá mais adiante, quando da definição das alianças para o pleito e da formalização dos registros de candidatura.

Ainda assim, há algo que chama atenção e que não se explica pela distância da eleição: a dificuldade que Allyson Bezerra, Álvaro Dias e Cadu Xavier demonstram, até agora, de ir além do óbvio quando o assunto são os problemas estruturais do Estado. A pré-campanha é pobre em propostas objetivas para questões nevrálgicas.

O Rio Grande do Norte elegeu 362 mulheres vereadoras neste ano, aponta TSE / Foto: José Cruz / Agência Brasil
Pré-candidatos no RN evitam temas espinhosos e questões estruturais do Estado aguardam respostas - Foto: José Cruz / Agência Brasil

Os futuros candidatos parecem evitar temas que são espinhosos. Seja porque não querem se comprometer, seja porque não têm a dimensão dos problemas, seja porque não sabem como enfrentar… Qualquer que seja a explicação, ela angustia quem está preocupado com o futuro do Estado.

A reportagem publicada nesta edição sobre o que os principais pré-candidatos ao governo pensam sobre o déficit da Previdência estadual é um caso ilustrativo. Em 2025, o rombo foi de mais de R$ 2 bilhões no regime próprio do RN. Trata-se de uma sangria que compromete a capacidade do Estado de investir em saúde, educação e infraestrutura.

Pois bem: quando instados a falar sobre o tema, os dois pré-candidatos que responderam à reportagem limitaram-se a prometer “responsabilidade fiscal” e “reorganização das contas”. Nenhuma resposta poderia ser mais genérica. Os dois também falaram que são experientes no assunto pois já administraram previdências municipais — Allyson, em Mossoró; Álvaro, em Natal. Nenhum, porém, apresentou uma medida concreta sequer para enfrentar o déficit no Estado. Cadu Xavier sequer respondeu aos questionamentos.

O padrão se repete em outros temas. Nas entrevistas realizadas nas últimas semanas, os três têm dedicado energia considerável a trocas de farpas — obras inacabadas aqui, incompetência fiscal acolá, rótulos ideológicos de um lado e de outro — enquanto as propostas concretas ficam em segundo plano. Álvaro Dias tem se escorado na gestão em Natal e na polarização ideológica como eixo central de sua candidatura. Cadu Xavier também, tentando colar de todo jeito na popular figura do presidente Lula. Allyson aposta na boa performance nas redes sociais e na popularidade conquistada em Mossoró.

Tudo isso pode até render dividendos eleitorais. Mas não resolve a Previdência, não melhora objetivamente o Hospital Walfredo Gurgel e não coloca um jovem do semiárido na universidade.

Sobre saúde, ouve-se que é preciso “fortalecer os hospitais regionais” para aliviar a capital. Sobre segurança, que “as facções estão tomando conta do Estado” e que é preciso investir mais. Sobre educação, que os serviços estão “comprometidos” e que é preciso priorizar a área.

Afirmações corretas, todas elas, e também inteiramente óbvias para qualquer cidadão que acompanhe minimamente a realidade potiguar. Mas o que se espera de quem quer governar um Estado é, primeiro, um diagnóstico mais preciso sobre o que está dado, com números, estudos, informações precisas. Sem isso, não se tem um bom ponto de partida. Mas, principalmente, o que o potiguar anseia é pela prescrição: como, com que recursos e com que metas verificáveis tais problemas serão solucionados.

O histórico recente do Rio Grande do Norte mostra que a boa vontade ou o bom currículo, isoladamente, não bastam. Gestões anteriores também prometeram equacionar problemas do Estado, com resultados que o eleitor conhece. A repetição de chavões como “mais responsabilidade fiscal” e “mais investimento em educação” não é apenas insuficiente. É, a esta altura, uma forma de subestimar o eleitor.

Há questões estruturais que não podem ser contornadas com retórica. No caso da Previdência, a paridade ainda vigente para parte dos servidores, a relação desfavorável entre ativos e inativos, a necessidade de um plano de amortização atuarial envolvendo todos os Poderes e a limitação de receitas são fatores que exigem enfrentamento técnico e político simultaneamente.

Os três principais pré-candidatos têm em comum algo valioso: a experiência de gestão. Álvaro administrou a maior cidade do Estado. Allyson comandou a segunda maior. Cadu gerenciou o orçamento estadual por quase oito anos. Esse currículo é, precisamente, o que os obriga a ir além do lugar-comum, do banal, da palavra ao vento. Quem já esteve do lado de dentro da máquina pública não pode fingir que não sabe o tamanho dos problemas — nem que as soluções cabem em um slogan.

O desafio posto não é trivial. Mas é exatamente por isso que exige mais do que o óbvio ululante.