A fala do senador Styvenson Valentim sobre coronéis da Polícia Militar não foi apenas infeliz, foi desrespeitosa com uma instituição inteira e com homens e mulheres que ocupam funções centrais na organização da segurança pública. Durante um evento em Parelhas, ao comentar sua saída da corporação para ingressar na política, o parlamentar afirmou que poderia estar hoje como coronel “sem fazer nada” e “ganhando dinheiro fácil”.
A resposta veio em diferentes frentes. Uma das entidades que representam oficiais divulgou posicionamento duro, classificando a fala como ofensiva e incompatível com alguém que já vestiu a farda. Integrantes da própria corporação defenderam o trabalho dos coronéis e, aliás, lembraram da trajetória do senador — que, segundo os relatos, essa sim, está longe de ter sido exemplar.

O comando da Polícia Militar do Rio Grande do Norte também se manifestou, ressaltando o papel dos oficiais superiores na estrutura da segurança pública e defendendo o trabalho desenvolvido ao longo de décadas por gerações de policiais.
Na Assembleia Legislativa, o episódio ganhou contornos políticos. O deputado Coronel Azevedo saiu em defesa do senador e tentou relativizar o conteúdo da fala, atribuindo a repercussão a um suposto “descontexto”. Argumentou que o estilo do parlamentar é mais descontraído e que a intenção não teria sido atacar a corporação. Já o deputado Francisco do PT fez o movimento oposto: classificou a declaração como “infeliz, injusta e agressiva” e afirmou que ela atinge diretamente profissionais da segurança pública.
Há um ponto que precisa ser tratado com objetividade. A Polícia Militar, como qualquer instituição pública, está sujeita ao escrutínio público. Pode e deve ser questionada e criticada quando houver razão para tal. Mas generalizações como a feita por Styvenson são irresponsáveis e ofensivas.
O trabalho dos oficiais superiores não se limita à presença nas ruas. Envolve planejamento, gestão de pessoal, logística, articulação institucional e decisões que impactam diretamente a atuação operacional. Reduzir esse conjunto de atribuições a “não fazem nada” é uma desqualificação inaceitável.
A reação interna da Polícia Militar deixa isso evidente. Não se trata de corporativismo, mas de uma resposta a uma fala que ignora a realidade da atividade. Há risco, há responsabilidade e há uma cadeia de comando que precisa funcionar para que o serviço chegue à população. Desconsiderar isso, ainda mais vindo de alguém que integrou a instituição, agrava o problema.
O episódio, no entanto, não pode ser tratado como um caso isolado. Ele se encaixa em um padrão que o senador vem construindo ao longo dos anos. Não são raras as ocasiões em que suas declarações provocam desconforto ou indignação. Em outro momento, ao comentar a agressão contra uma mulher, afirmou não saber “o que ela fez para levar dois tapas”. Em situação distinta, dirigiu-se a uma colega parlamentar sugerindo que uma agressão sofrida por ela só poderia ser explicada por adultério ou uso de drogas. São falas que ultrapassam o limite do aceitável no debate público.
Há ainda o uso recorrente de linguagem agressiva, palavrões em aparições públicas e ataques pessoais diretos a adversários. Esse conjunto forma um estilo que, para alguns, pode parecer espontâneo. Para outros, revela descuido com a responsabilidade de quem ocupa um cargo da envergadura do de senador.
É preciso reconhecer que o senador tem atuação parlamentar relevante. O Estado agradece seu trabalho de destinação de recursos para obras e ações que alcançam as pessoas vulneráveis. Mas isso não serve como escudo para comportamentos inadequados.
O mandato exige mais do que entregas concretas. Exige equilíbrio, respeito institucional e compromisso com a seriedade do debate. Quando um representante público passa a tratar temas sensíveis com frases de efeito ou generalizações, o prejuízo não é apenas de imagem. É de conteúdo. O debate se empobrece.
Há, na trajetória recente do senador, uma percepção crescente de que ele se coloca acima das críticas. Como se suas falas não precisassem de revisão ou ponderação. Esse tipo de postura afasta a política do cidadão comum, que espera de seus representantes não apenas ação, mas também responsabilidade.
A segurança pública no Rio Grande do Norte não comporta simplificações. É um tema complexo, que envolve diferentes níveis de atuação e exige respeito aos profissionais que integram o sistema. A corporação pode e deve ser cobrada. Mas isso se faz com seriedade.
O episódio recente é mais um entre vários que pedem reflexão. Não apenas por parte do senador, mas também de quem acompanha e legitima esse tipo de discurso. A política não pode se acostumar com o desrespeito como método.
O Rio Grande do Norte merece mais do que isso.