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Editorial

A educação potiguar além do palanque

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 12
Redação
12/05/2026 | 06:10

A polêmica que se instalou nos últimos dias em torno da possível federalização ou privatização da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) e da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) esteve longe de ser um debate profícuo sobre questões centrais para o futuro do Estado. O que se viu, envolvendo os principais postulantes ao Governo do Estado, não foi uma discussão qualificada sobre caminhos possíveis para duas instituições estratégicas. O que se verificou foi uma corrida de oportunismo, em que adversários tentaram surfar em um suposto deslize retórico de um dos pré-candidatos, transformando um tema complexo em combustível para engajamento nas redes sociais.

O episódio teve início após declarações do ex-prefeito de Natal Álvaro Dias, hoje filiado ao PL e pré-candidato ao Governo do Estado. Ele admitiu a possibilidade de discutir alternativas como a privatização ou a federalização da Uern e da Caern. A repercussão foi imediata. Reitora, professores, estudantes e adversários políticos reagiram. A professora Cicília Maia, reitora da universidade, afirmou que “qualquer pessoa ou projeto que fale contra a Uern não será aceito por nossa comunidade”. Outros pré-candidatos, como Allyson Bezerra (União) e Cadu Xavier (PT), também aproveitaram a ocasião para se apresentar como defensores da instituição.

UeRio Grande do Norte abre 35 vagas gratuitas para especialização em Turismo, Literatura e Cultura em Natal - Foto: José Aldenir/Agora RN
A educação potiguar além do palanque - Foto: Uern

O problema é que, em vez de surfar nesse oportunismo com vistas tão somente a gerar engajamento nas mídias digitais, os pré-candidatos ao governo deveriam fugir da dicotomia simplista entre privatizar ou não privatizar a Uern e a Caern. O Rio Grande do Norte precisa de algo mais relevante: proposições concretas para enfrentar dois grandes gargalos históricos do Estado.

No caso da Uern, o debate é ainda mais necessário porque, para além do populismo eleitoral que costuma cercar esse tipo de discussão — com discursos calculados para angariar apoio de professores, alunos, ex-alunos e servidores —, existe uma questão objetiva que precisa ser enfrentada. O Rio Grande do Norte dispõe ou não de condições financeiras para sustentar, com recursos próprios, uma universidade estadual capaz de oferecer ensino superior de alta qualidade?

A comparação com instituições como a Universidade de São Paulo (USP) ou com universidades estaduais do Ceará e do Paraná pouco ajuda quando se ignora a realidade fiscal potiguar. O fato é que o Rio Grande do Norte enfrenta graves limitações orçamentárias. O Estado mal consegue cumprir os mínimos constitucionais na educação básica, que é sua responsabilidade primordial. Nos últimos anos, não houve incremento significativo de recursos nem expansão consistente de investimentos no setor, justamente porque as finanças públicas seguem pressionadas.

O reflexo dessa escassez aparece nos indicadores educacionais. Basta observar os resultados do Ideb e de outros índices para constatar que a educação pública potiguar continua aquém do desejável. A deficiência não se restringe à universidade. Ela começa na base, onde estão as maiores obrigações do Estado e onde se formam as condições para que os estudantes cheguem ao ensino superior em melhores condições.

Nesse contexto, discutir a federalização ou até mesmo a privatização da Uern não deveria ser tratado como heresia. Trata-se de um debate legítimo. Se a retirada dessa obrigação do orçamento estadual permitir que sobrem recursos para reforçar a educação básica, é natural que a hipótese seja ao menos considerada, sem histeria e sem slogans.

Isso não significa desconsiderar o papel histórico da Uern, sua importância para a interiorização do ensino superior e sua contribuição na formação de milhares de profissionais potiguares. Significa apenas reconhecer que nenhuma instituição pública deve estar imune a uma discussão franca sobre sustentabilidade, qualidade e prioridades.

A reação ao episódio também expôs as fragilidades do próprio Álvaro Dias. Seu posicionamento deixou evidente que ele não tinha uma posição definida sobre temas sensíveis para o Rio Grande do Norte. Em vez de apresentar uma proposta clara, recorreu a formulações vagas, mencionou a possibilidade de estudos e, posteriormente, recuou diante da repercussão.

Ficou patente um certo malabarismo eleitoral e verborrágico, na tentativa de se ajustar ao novo campo ideológico em que passou a atuar. Álvaro, que já integrou partidos de centro e de esquerda, como o PDT, hoje está no PL. Sua fala inicial soou alinhada ao discurso mais radical do partido e do senador Rogério Marinho. Depois, provavelmente orientado pelo marketing político, tratou de relativizar o que havia dito.

Se Álvaro demonstrou indefinição, seus adversários também não apresentaram nada de substancial. Aproveitaram a controvérsia para capitalizar politicamente, mas sem oferecer propostas factíveis, reais e concretas para o futuro da Uern.

Esse é o ponto central. Se não há disposição para defender a federalização nem para discutir a privatização, então que todos os pré-candidatos, sem exceção, abandonem o lugar-comum das declarações de ocasião e apresentem um plano efetivo de evolução e desenvolvimento da universidade.

A Uern precisa de metas de qualidade acadêmica, fortalecimento da pesquisa, expansão da extensão, modernização da infraestrutura, valorização docente e sustentabilidade financeira. Precisa, sobretudo, de um projeto consistente, que a faça avançar.

Porque, a julgar pelos posicionamentos apresentados até agora, o debate continua restrito à superfície. E, se permanecer assim, seja qual for o governador eleito em 2026, nada de relevante acontecerá.

A Uern continuará convivendo com limitações que impedem voos mais altos, enquanto a educação do Rio Grande do Norte seguirá presa aos mesmos indicadores insatisfatórios que há anos expõem a distância entre o discurso político e a realidade.