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Editorial

O trauma das motos e a omissão diante de uma tragédia anunciada

Confira o editorial do Agora RN desta quinta-feira 7
Redação
07/05/2026 | 05:53

O novo relatório sobre o impacto dos acidentes de motocicleta no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel ajuda a traduzir em números uma realidade que há muito tempo já é visível nas emergências do Rio Grande do Norte. A cada três horas, em média, uma nova vítima de acidente de moto dá entrada no maior hospital público do Estado.

São, em média, 58 atendimentos por semana — quase 60 pessoas mutiladas, feridas ou traumatizadas em um fluxo permanente que não permite “respiro” às equipes médicas, segundo definição do próprio estudo elaborado pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (Lais/UFRN).

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O trauma das motos e a omissão diante de uma tragédia anunciada - Foto: Freepik

O dado impressiona. Mas não surpreende. Há anos o Rio Grande do Norte convive com a explosão do uso de motocicletas e, junto dela, com a multiplicação dos acidentes graves. O próprio relatório mostra que o Walfredo opera “no limite crítico de sua capacidade”. Em dezembro do ano passado, o hospital chegou ao ápice de 304 internações em um único mês, média de dez pacientes por dia. Não se trata de um episódio isolado. Trata-se de um padrão consolidado.

E talvez aí esteja o aspecto mais preocupante de toda a discussão: o problema é conhecido, antigo, documentado e crescente — mas continua sendo tratado quase exclusivamente como estatística hospitalar, e não como uma crise estrutural de saúde pública e mobilidade urbana.

A pressão exercida pelos acidentados de moto lota hospitais, ocupa leitos, congestiona centros cirúrgicos e sobrecarrega equipes de ortopedia e trauma. Como consequência, pacientes de outras áreas acabam tendo mais dificuldade de acesso ao sistema de saúde. Cirurgias atrasam, atendimentos ficam mais lentos e a rede pública opera sob tensão contínua.

Tudo isso agravado por um elemento ainda mais dramático: trata-se, em larga medida, de um problema evitável.

É evidente que acidentes acontecem. Mas também é evidente que a esmagadora maioria das ocorrências graves decorre de imprudência, como excesso de velocidade e desrespeito a outras normas de trânsito. Há outras estatísticas mostrando que muitos motociclistas são internados devido a traumas severos na cabeça, frequentemente associados ao não uso do capacete.

O próprio contexto do RN ajuda a compreender a dimensão do problema. Em 2025, o Detran apontou que metade dos proprietários de motocicletas do Estado não possuía Carteira Nacional de Habilitação. Eram mais de 340 mil pessoas conduzindo motos sem habilitação. No mesmo período, o Estado ultrapassou pela primeira vez a marca de mais motocicletas do que carros em circulação. Mais de 60% das mortes fatais no trânsito potiguar envolveram motos.

Diante disso, a pergunta inevitável é: sabendo de tudo isso, o que efetivamente vem sendo feito? A divulgação de dados atualizados, como os apresentados agora pelo Lais, é extremamente relevante. Mas já não basta repetir diagnósticos.

As estatísticas deixam claro que, se existe alguma política em curso, ela não tem sido suficiente para alterar a realidade.

O enfrentamento dessa questão exige uma abordagem muito mais ampla e séria. E passa, necessariamente, por diferentes áreas.

Há uma dimensão macroeconômica impossível de ignorar. A motocicleta virou o principal meio de transporte de milhares de trabalhadores porque é mais barata, consome menos combustível e oferece deslocamento mais rápido em cidades congestionadas. Em um cenário de renda apertada, a moto deixou de ser escolha e passou a ser necessidade.

Mas há também uma dimensão urbana igualmente importante. O crescimento desordenado das cidades empurra trabalhadores para áreas cada vez mais distantes dos centros econômicos. Quanto maior a distância entre moradia e trabalho, maior a exposição diária ao risco. E isso se agrava quando o transporte público não oferece alternativas eficientes.

Nesse ponto, Natal continua devendo respostas importantes. A licitação do sistema de transporte coletivo se arrasta há anos. A cidade segue sem uma política robusta de mobilidade urbana capaz de oferecer ao cidadão alternativas reais ao uso da motocicleta. Melhorar o transporte público não é apenas uma pauta de conforto urbano. É também uma política de saúde pública e preservação de vidas.

A questão da regulamentação dos aplicativos de entrega também precisa entrar definitivamente na pauta. Boa parte dos motociclistas acidentados trabalha sob pressão permanente por velocidade, produtividade e cumprimento de metas impostas pelas plataformas digitais. O entregador corre porque, muitas vezes, se não correr, não consegue renda suficiente para sobreviver.

Ignorar isso é fingir que os acidentes são apenas fruto de irresponsabilidade individual, quando existe também um modelo econômico incentivando jornadas exaustivas e deslocamentos arriscados.

Além disso, é preciso fortalecer fiscalização e educação no trânsito de forma permanente — e não apenas em campanhas sazonais. Isso envolve combater circulação sem habilitação, exigir manutenção adequada das motos, reforçar o uso correto do capacete, coibir excesso de velocidade, reduzir práticas perigosas como trafegar em corredores e estimular uma cultura mínima de respeito às normas de trânsito.

Os gestores locais talvez tenham pouca margem para interferir em questões macroeconômicas nacionais. Mas possuem instrumentos concretos para agir em outras frentes. Melhorar o transporte público, executar intervenções urbanas que reduzam gargalos de mobilidade, ampliar fiscalização e tirar do papel a regulamentação local dos aplicativos são medidas possíveis — e urgentes.

Porque o que está acontecendo no Walfredo Gurgel não é apenas um problema hospitalar. É o retrato diário de uma tragédia anunciada que o poder público já conhece há muito tempo, mas que continua enfrentando de maneira insuficiente.