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Editorial

Turismo exige mais que promessa

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 29
Redação
29/05/2026 | 06:03

Diante do que se anuncia para a disputa eleitoral de 2026 no Rio Grande do Norte, qualquer iniciativa que tente elevar o nível do debate público merece registro. A pré-campanha, até aqui, tem sido marcada muito mais por tentativas de polarização, troca de críticas, disputas de imagem e exploração de falhas discursivas entre pré-candidatos do que propriamente pela apresentação concreta de propostas para destravar economicamente o Estado. Nesse cenário de pobreza de ideias e escassez de planos objetivos, ganha relevância a iniciativa da Fecomércio RN e da Câmara Empresarial do Turismo de cobrar que compromissos com o setor sejam incorporados formalmente aos planos de governo dos futuros candidatos ao Executivo estadual.

A proposta é simples, mas extremamente necessária: retirar o turismo do terreno vago das promessas genéricas de campanha e levá-lo para o campo das metas concretas, dos compromissos públicos e das cobranças permanentes. Segundo o que foi apresentado pelo setor, a intenção é entregar aos candidatos um documento com propostas estruturantes para o período de 2027 a 2030, incluindo temas como licenciamento ambiental, ampliação da malha aérea, concessões, PPPs, promoção turística, interiorização do turismo, infraestrutura e atração de investimentos. Mais do que um gesto simbólico, trata-se de uma tentativa legítima de fazer com que o turismo deixe de ser apenas peça de marketing eleitoral para se transformar efetivamente em política de Estado.

Forte dos Reis Magos. Foto: Sandro Menezes
Turismo exige mais que promessa - Foto: Sandro Menezes

Nunca é demais lembrar a importância do turismo para o Rio Grande do Norte. Um estado historicamente dependente de atividades primárias, pouco industrializado e fortemente movido pelo setor de serviços e pelo funcionalismo público encontra no turismo uma de suas atividades econômicas mais estratégicas. O turismo representa cerca de 7% do PIB potiguar, movimenta dezenas de atividades econômicas paralelas e gera algo em torno de 40 mil empregos diretos e indiretos.

O impacto do turismo sobre a economia potiguar vai muito além dos números diretos do setor. Poucas atividades possuem capacidade semelhante de irradiar efeitos sobre tantas cadeias econômicas simultaneamente. O turista que chega ao Rio Grande do Norte movimenta hotéis, pousadas, bares, restaurantes, comércio, transporte, eventos, artesanato, agricultura, pesca, construção civil, cultura, entretenimento e serviços dos mais variados tipos. O turismo ativa desde grandes empreendimentos até pequenos negócios familiares espalhados pelo litoral e pelo interior. Trata-se de uma atividade que distribui renda de maneira capilarizada e ajuda a dinamizar regiões inteiras da economia potiguar.

E o potencial do RN vai muito além do tradicional turismo de sol e praia. O Estado possui um litoral competitivo, reconhecido nacionalmente e internacionalmente, mas também reúne condições para expandir o turismo religioso, histórico, cultural e interiorano. Basta observar o potencial de municípios ligados à religiosidade popular, aos santos e às manifestações de fé espalhadas pelo interior potiguar, além das serras, trilhas, gastronomia regional e experiências ligadas ao turismo rural e ecológico. Há um patrimônio turístico muito mais amplo do que frequentemente se explora.

O problema é que potencial sozinho não produz desenvolvimento. E talvez esse seja justamente o principal mérito da iniciativa da Fecomércio: reconhecer que o turismo não crescerá apenas por inércia ou pela beleza natural do Estado. O setor privado investe, amplia serviços, melhora equipamentos e profissionaliza operações. Mas existem áreas em que a atuação do poder público é decisiva. O próprio documento preparado pelo trade aponta gargalos históricos que atravessam governos sem solução adequada.

O primeiro deles é o licenciamento ambiental. Não se trata de defender flexibilização irresponsável da legislação, como corretamente ressalta o setor, mas de cobrar eficiência, capacidade técnica e agilidade compatível com o ritmo dos investimentos privados. Também é impossível discutir crescimento turístico sem tratar de conectividade aérea. Turismo sem voo simplesmente não existe. O RN precisa ampliar frequências, consolidar rotas nacionais e internacionais e manter política permanente de atração de companhias aéreas.

A discussão sobre a Via Costeira também é inevitável. É difícil aceitar que o principal corredor hoteleiro da capital esteja há cerca de duas décadas sem receber investimentos relevantes em novos equipamentos enquanto outros estados nordestinos avançaram fortemente na ampliação da oferta turística. O setor também acerta ao defender concessões e PPPs para equipamentos públicos estratégicos, como o Centro de Convenções, Fortaleza dos Reis Magos, Cajueiro de Pirangi e Parque das Dunas.

Tudo isso chega em boa hora porque o tempo de campanha ficou cada vez menor, reduzindo também o espaço para amadurecimento das propostas perante o eleitorado. As eleições brasileiras se transformaram progressivamente em disputas de marketing, imagem e narrativa, muitas vezes esvaziadas de debate real sobre projetos de desenvolvimento. Esperar que planos concretos surjam espontaneamente dos próprios pré-candidatos talvez seja, hoje, um exercício excessivo de otimismo.

Por isso, seria desejável que outras entidades econômicas e setores estratégicos do Estado adotassem postura semelhante. O turismo está fazendo sua parte ao tentar pautar o debate com propostas objetivas. O Rio Grande do Norte precisa discutir mais do que slogans eleitorais. Precisa discutir caminhos concretos para crescer, gerar renda, atrair investimentos e criar oportunidades. E o turismo, sem dúvida, é um desses caminhos.