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Editorial

O dever de casa que o RN ainda tem de fazer

Confira o editorial do Agora RN deste sábado 20
Redação
20/06/2026 | 05:57

Pela primeira vez na série histórica, a taxa de analfabetismo do Rio Grande do Norte caiu para um patamar inferior a 10%, atingindo 9,3% em 2025. Trata-se do menor índice já registrado e de uma redução significativa em relação aos 13,9% verificados há nove anos. É uma evolução concreta e que merece ser celebrada.

O avanço, porém, não pode servir para mascarar uma realidade que continua profundamente preocupante. Afinal, mesmo registrando sua melhor marca histórica, o RN segue entre os estados brasileiros com maior percentual de analfabetos. Enquanto a média brasileira caiu para 4,9%, o índice potiguar permanece praticamente o dobro desse percentual.

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O dever de casa que o RN ainda tem de fazer - Foto: Geovana Albuquerque / Agência Brasília

Os dados revelam que aproximadamente 265 mil potiguares ainda não sabem ler e escrever um bilhete simples, definição utilizada pelo próprio IBGE para caracterizar o analfabetismo. Mais grave ainda é constatar que cerca de 139 mil dessas pessoas têm 60 anos ou mais, demonstrando que a exclusão educacional acumulada ao longo de décadas ainda produz efeitos profundos sobre parte significativa da população.

Não há motivo para ignorar os avanços alcançados. Pelo contrário. Eles precisam ser reconhecidos. O Governo do Estado atribui essa redução a um conjunto de políticas implementadas nos últimos anos, entre elas a Política Territorial de Alfabetização de Crianças (Pró-Alfa RN), a adesão integral dos municípios ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, a distribuição de materiais pedagógicos, a implantação de espaços de leitura nas escolas, o fortalecimento da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e a Política de Superação do Analfabetismo, que, segundo dados oficiais, já alfabetizou mais de 10 mil pessoas em 113 municípios.

São iniciativas importantes e que parecem estar produzindo resultados concretos. Também merecem registro os avanços em outros indicadores educacionais apresentados pela Pnad, como a taxa de frequência escolar de 99,3% entre crianças de 6 a 14 anos e o percentual de estudantes matriculados na série adequada acima da meta prevista pelo Plano Nacional de Educação. Esses indicadores mostram que existe uma estrutura de políticas públicas em funcionamento e que ela vem produzindo melhorias graduais.

Mas seria um grave equívoco transformar esse avanço em motivo para acomodação. O fato de o Rio Grande do Norte ter conseguido reduzir sua taxa de analfabetismo para menos de 10% não elimina a vergonha de ainda conviver com um dos maiores índices do País. Em pleno século XXI, milhares de cidadãos continuam privados de um direito elementar, que é a capacidade de ler e escrever. Trata-se de uma limitação que afeta não apenas a vida individual dessas pessoas, mas compromete o desenvolvimento econômico, a produtividade, a geração de renda, a inclusão social e o exercício pleno da cidadania.

Não existe estado desenvolvido sustentado sobre uma base educacional frágil. A educação está na origem da inovação, da qualificação profissional, da atração de investimentos, da redução das desigualdades e da melhoria dos indicadores sociais. Por isso, combater o analfabetismo não deve ser encarado apenas como uma política educacional, mas como uma estratégia de desenvolvimento para o Rio Grande do Norte.

Nesse contexto, é legítimo reconhecer que as ações atualmente em curso precisam ser aprofundadas. O Estado necessita de uma política pública ainda mais agressiva para acelerar a erradicação do analfabetismo.

A proximidade das eleições estaduais torna essa discussão ainda mais necessária. Quem pretende governar o Rio Grande do Norte pelos próximos quatro anos precisa apresentar propostas claras para enfrentar essa chaga social. O combate ao analfabetismo não pode aparecer apenas como um item genérico em planos de governo. Precisa ser tratado como prioridade absoluta, com metas, cronogramas, recursos e mecanismos de acompanhamento.

Por questão de justiça, é preciso registrar que um dos pré-candidatos já colocou esse tema no centro de sua plataforma. Professor universitário, Robério Paulino (Psol) vem afirmando, com razão, que o analfabetismo é o maior problema do Estado e declarou sentir “vergonha” dessa realidade. Não é para menos. Como proposta, defende um grande mutirão envolvendo estudantes de universidades públicas e privadas para erradicar o problema em dois anos, além da ampliação da educação integral, da valorização dos profissionais da educação e da qualificação permanente dos educadores. A meta de Robério é ousada, mas o Estado não pode mirar algo menor do que isso.

Deste espaço, fica a cobrança aos demais pré-candidatos, especialmente os que lideram as pesquisas eleitorais — Allyson Bezerra (União), Álvaro Dias (PL) e Cadu Xavier (PT) — para que não deixem essa temática de lado em suas propostas de governo. O eleitor potiguar precisa saber quais são seus compromissos concretos para reduzir rapidamente um índice que ainda envergonha o Estado.

O futuro do Rio Grande do Norte depende da capacidade de romper esse ciclo histórico de exclusão educacional. Afinal, nenhuma obra, nenhum investimento e nenhuma política de desenvolvimento produzirão resultados duradouros se milhares de potiguares continuarem privados do mais básico dos instrumentos de emancipação: a educação.