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Editorial

Epidemia de acidentes de moto exigem reação do poder público

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 26
Redação
26/06/2026 | 05:58

Os novos números sobre os acidentes envolvendo motocicletas no Rio Grande do Norte deixam ainda mais evidente uma realidade que o Estado parece enfrentar apenas quando ela chega às portas dos hospitais. O problema deixou de ser apenas uma tragédia humana. Tornou-se também uma grave questão de saúde pública, de gestão hospitalar e de responsabilidade fiscal.

Os dados mais recentes mostram que, entre 2015 e 2025, 74,9% de todas as internações hospitalares por acidentes de transporte registradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado envolveram motocicletas. Foram 33.344 internações de condutores e passageiros de motos em uma década. No mesmo período, os acidentes de trânsito consumiram cerca de R$ 84 milhões dos cofres públicos, sendo aproximadamente R$ 8 milhões por ano apenas nos últimos cinco anos.

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Epidemia de acidentes de moto exigem reação do poder público - Foto: José Aldenir

É dinheiro que poderia estar financiando novos serviços de saúde, exames, cirurgias eletivas, medicamentos ou ampliação da assistência à população. Em vez disso, precisa ser utilizado para atender uma demanda que, em grande medida, poderia ser reduzida com prevenção, educação e fiscalização.

Não é uma constatação nova. Em 2023, a promotora de Justiça Iara Pinheiro já classificava o cenário como uma verdadeira “epidemia de acidentes de trânsito”. Na ocasião, chamou atenção para um aspecto frequentemente negligenciado: a deficiência do transporte público, que empurra milhares de trabalhadores para a motocicleta como principal meio de deslocamento. Três anos depois, infelizmente, a realidade apenas confirma aquele diagnóstico.

Também não faltam evidências sobre o impacto dessa epidemia dentro da principal unidade de trauma do Estado.

O Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel recebe, em média, uma vítima de acidente de moto a cada três horas. São aproximadamente 58 atendimentos por semana, em um fluxo permanente que, segundo estudo elaborado pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (Lais/UFRN), mantém o hospital operando próximo do limite de sua capacidade. Em dezembro de 2025, foram registradas 304 internações em apenas um mês, média de dez pacientes por dia.

O próprio secretário estadual de Saúde, Alexandre Motta, reconheceu recentemente que quase 90% dos acidentes de trânsito que chegam ao Hospital Walfredo Gurgel envolvem motocicletas. Foi além: afirmou que, numa hipótese extrema, “se não existisse moto, certamente o Walfredo Gurgel e o Tarcísio Maia seriam hospitais esvaziados”.

É uma afirmação forte. Mas ela traduz com clareza o tamanho da pressão que esses acidentes exercem sobre a rede pública de saúde.

Quando um hospital permanece ocupado por vítimas de acidentes evitáveis, não são apenas esses pacientes que sofrem. Leitos deixam de atender outras doenças, cirurgias são adiadas, equipes médicas ficam sobrecarregadas e toda a população passa a enfrentar um sistema mais lento e mais congestionado.

Mais grave ainda é perceber que boa parte desse problema decorre de comportamentos conhecidos.

Excesso de velocidade, desrespeito às regras de circulação, ultrapassagens perigosas, manobras como o chamado “grau”, consumo de álcool, imprudência e, muitas vezes, ausência de equipamentos de proteção continuam fazendo parte da rotina das ruas brasileiras. Soma-se a isso a pressão enfrentada por motociclistas que trabalham com entregas por aplicativos, submetidos a jornadas intensas e remuneração frequentemente associada ao número de entregas realizadas.

Existe, evidentemente, uma dimensão econômica e social que não pode ser ignorada. A motocicleta tornou-se o principal instrumento de trabalho e locomoção de milhares de famílias justamente por ser mais acessível que o automóvel e pela precariedade do transporte coletivo.

Há outro dado que ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. Em 2025, levantamento do Detran apontou que cerca de metade dos proprietários de motocicletas do Rio Grande do Norte não possuía Carteira Nacional de Habilitação. Eram mais de 340 mil pessoas conduzindo motocicletas sem habilitação. No mesmo ano, o Estado ultrapassou pela primeira vez a marca de mais motocicletas do que carros em circulação, enquanto mais de 60% das mortes no trânsito envolveram motos.

São indicadores alarmantes que, reunidos, revelam um problema estrutural. Não se trata de episódios isolados nem de fatalidades inevitáveis. Trata-se de uma cultura de trânsito permissiva, em que normas básicas frequentemente deixam de ser respeitadas e em que a percepção de risco parece cada vez menor.

Diante desse cenário, não basta divulgar estatísticas. Tampouco é suficiente ampliar leitos hospitalares para atender uma demanda que continua crescendo. É indispensável agir antes que o acidente aconteça.

O poder público precisa intensificar campanhas permanentes de educação para o trânsito, começando pelas escolas e alcançando toda a sociedade. Não campanhas pontuais durante datas comemorativas, mas ações contínuas, capazes de modificar comportamentos ao longo do tempo. Da mesma forma, é necessário ampliar a fiscalização sobre condução sem habilitação, excesso de velocidade, uso correto do capacete e demais infrações que colocam vidas em risco diariamente.

Estados e municípios também precisam fortalecer políticas de mobilidade urbana que ofereçam alternativas reais ao uso indiscriminado da motocicleta, além de aperfeiçoar a regulamentação das atividades de entrega por aplicativos, buscando reduzir incentivos econômicos à condução excessivamente arriscada.

Nenhuma dessas medidas eliminará completamente os acidentes. Mas todas podem reduzir significativamente sua frequência e sua gravidade.

Os números já não deixam espaço para dúvida. O Rio Grande do Norte convive com um problema que custa vidas, consome milhões de reais do orçamento público, sobrecarrega hospitais e compromete o atendimento de milhares de outros pacientes. Continuar tratando essa realidade apenas como estatística significa aceitar que ela permaneça crescendo. E isso já não é mais uma opção aceitável.