O Congresso Nacional nunca teve tanto poder quanto agora. O controle de parcelas cada vez maiores do Orçamento por meio das emendas parlamentares, a influência direta sobre políticas públicas e a capacidade de acelerar ou travar projetos relevantes transformaram deputados e senadores em protagonistas da política brasileira. Em muitos momentos, a impressão é de que o Parlamento é que dita as prioridades do debate público, e não o Executivo, que deveria ter o controle da agenda.
Mas, justamente quando o Congresso amplia sua influência sobre os rumos do País, o eleitor parece continuar dando pouca importância à escolha de seus representantes. O contraste chama atenção e ajuda a explicar parte da crise de representatividade vivida pela política brasileira.

Pesquisas recentes ajudam a retratar esse cenário. Levantamento do Datafolha divulgado em março mostrou que apenas 14% dos brasileiros avaliam o trabalho do Congresso como ótimo ou bom, enquanto 39% o classificam como ruim ou péssimo. Outros 42% consideram a atuação apenas regular, e 45% afirmam simplesmente não confiar na instituição. São números que revelam um Parlamento desgastado perante a opinião pública, apesar do espaço crescente que ocupa nas grandes decisões nacionais.
Ao mesmo tempo, uma pesquisa CNT/MDA divulgada nesta semana mostra que esse descontentamento não tem sido acompanhado por maior atenção ao voto legislativo. Pelo contrário. Segundo o levantamento, 60,5% dos brasileiros não lembram em quem votaram para deputado federal e senador nas eleições de 2022. Apenas 12,5% afirmam recordar todos os candidatos escolhidos.
O dado impressiona. Seis em cada dez eleitores não conseguem lembrar os nomes das pessoas que ajudaram a eleger para um dos cargos mais importantes da República. Isso sugere que a decisão foi tomada sem grande envolvimento com a campanha, sem acompanhamento das propostas e, muitas vezes, sem uma avaliação mais cuidadosa sobre quem estava recebendo aquele voto.
O problema vai além da memória. Se o eleitor não sabe em quem votou, dificilmente conseguirá acompanhar o desempenho daquele parlamentar durante o mandato. Como cobrar posicionamentos, coerência ou cumprimento de promessas sem saber quem foi escolhido? O controle social sobre deputados e senadores depende dessa identificação entre representante e representado. Sem ela, a fiscalização da sociedade fica enfraquecida e o mandato acaba recebendo uma espécie de salvo-conduto até a eleição seguinte.
Essa distância entre eleitor e Parlamento também revela uma compreensão ainda limitada sobre o papel desempenhado pelo Congresso. A disputa para presidente ou governador costuma concentrar atenções, enquanto a eleição para deputado federal acaba sendo tratada como um detalhe da campanha. Muitas pessoas passam meses discutindo candidatos ao Executivo e deixam para escolher o deputado apenas nos últimos dias, ou até na própria fila da votação.
A própria pesquisa CNT/MDA reforça essa percepção. Apenas 12,1% dos entrevistados afirmam já ter decidido o voto para deputado e senador em 2026. A maioria pretende esperar o início oficial da campanha ou os dias imediatamente anteriores à eleição para fazer sua escolha. Esse comportamento favorece decisões pouco refletidas, baseadas em publicidade de última hora, influência de lideranças locais ou simples indicação de conhecidos, em vez de uma análise consistente da atuação e das propostas dos candidatos.
Também persiste um desconhecimento significativo sobre o funcionamento do sistema proporcional utilizado para eleger deputados federais. Muita gente ainda ignora que o voto dado a um candidato pode ajudar a eleger outro integrante da mesma legenda ou federação partidária, por meio do quociente eleitoral. Trata-se de um mecanismo central da eleição brasileira, mas que permanece pouco compreendido pela população.
Não é raro encontrar eleitores que reclamam da atuação do Congresso enquanto afirmam ter votado apenas pensando na eleição presidencial. Depois se surpreendem quando o Parlamento segue um caminho diferente daquele defendido pelo governo que ajudaram a eleger. Esquecem que a governabilidade e a aprovação de projetos dependem diretamente da composição da Câmara e do Senado.
Por isso, a discussão sobre o voto legislativo precisa ganhar mais espaço no debate público. A Justiça Eleitoral poderia investir em campanhas permanentes de esclarecimento sobre as atribuições de deputados e senadores e sobre o funcionamento do sistema eleitoral. Escolas, universidades, meios de comunicação e organizações da sociedade civil também podem contribuir para ampliar o conhecimento político da população.
Uma democracia forte depende de eleitores conscientes do peso de cada escolha. Em um Congresso que concentra cada vez mais poder e influência sobre os rumos do País, tratar o voto para deputado e senador como uma decisão secundária significa abrir mão de uma parcela importante da própria cidadania. Quanto maior for o interesse da sociedade por essas eleições, maiores serão as chances de construir um Parlamento mais qualificado e mais conectado às expectativas dos brasileiros.