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Editorial

A disputa política em meio à tragédia

Confira o editorial do Agora RN desta quarta-feira 17
Redação
17/06/2026 | 05:41

O atentado contra o vereador mossoroense Cabo Deyvison, que deixou morto seu assessor Alyson Dyego, realmente não pode ficar sem resposta. Aliás, o Rio Grande do Norte não pode naturalizar cenas de extrema violência, muito menos quando envolvem um agente político às vésperas de um processo eleitoral.

Neste sentido, são totalmente legítimas as cobranças, por parte da oposição, por uma investigação rápida e rigorosa. As manifestações exigindo a identificação dos autores, executores e eventuais mandantes são corretas. A sociedade precisa saber quem atirou, por que atirou e se houve motivação política, atuação de facções criminosas ou qualquer outra circunstância que tenha levado ao atentado. Não há democracia sólida quando representantes eleitos são alvo de violência armada.

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A disputa política em meio à tragédia - Foto: Reprodução

Mas, no atual episódio, as cobranças ultrapassaram o limite do razoável em alguns casos. A investigação ainda sequer saiu dos primeiros passos e parte do debate público abandonou a prudência para mergulhar na exploração política do episódio. Antes mesmo que o corpo do assessor fosse sepultado, discursos inflamados de setores da oposição já ocupavam redes sociais, transformando uma tragédia humana em combustível para a disputa eleitoral.

É evidente que a segurança pública pode — e deve — ser objeto de críticas. Governos precisam responder por seus resultados, sobretudo em uma área tão sensível. O Rio Grande do Norte ainda enfrenta desafios relevantes no combate ao crime organizado e ninguém pode fingir que o problema não existe. Mas existe uma diferença importante entre cobrar respostas e utilizar uma ocorrência ainda cercada de incertezas como peça de propaganda política.

Algumas manifestações ultrapassaram essa linha. Houve quem tratasse o atentado como prova definitiva de teses políticas antes mesmo da conclusão das perícias ou do avanço das investigações. Houve quem apontasse culpados indiretos, sugerisse conivência estatal e estabelecesse relações que ainda dependem de confirmação das autoridades. O episódio mais emblemático talvez tenha sido a visita do pré-candidato ao governo Álvaro Dias (PL) ao hospital onde Cabo Deyvison está internado. A ida foi transformada em conteúdo para redes sociais, com direito à exposição do vereador ferido e declarações políticas diante de um leito hospitalar. Em resumo, a enfermaria foi transformada em palanque.

Apressadamente, antes mesmo de um pronunciamento oficial das forças de segurança do Estado anunciando as primeiras ações, o pré-candidato ao governo chegou a falar em federalizar o caso, numa nítida tentativa de colar no governo incompetência para lidar com a investigação de um crime que havia acabado de ocorrer.

A impressão transmitida foi a de uma corrida para ocupar o espaço narrativo antes mesmo de a polícia ocupar o espaço investigativo. Como se a tragédia precisasse ser imediatamente convertida em ativo eleitoral. Como se os tiros disparados contra um vereador representassem também uma oportunidade para disparar acusações contra adversários políticos.

Isso não fortalece a democracia. Pelo contrário. Contamina um caso gravíssimo com disputas partidárias e dificulta a separação entre fatos, hipóteses e interesses eleitorais. Em momentos como esse, o dever dos líderes políticos deveria ser contribuir para a serenidade institucional, não para a ampliação da polarização.

E chama atenção que, enquanto o debate político ganhava intensidade, as forças de segurança seguiam trabalhando. Em poucas horas, diligências levaram à identificação e prisão de suspeitos e ao interrogatório de um motorista apontado como possível facilitador da fuga. O avanço das investigações demonstra que o caminho adequado continua sendo o da prudência e trabalho técnico, e não o dos julgamentos precipitados nas redes sociais ou dos discursos produzidos sob o calor da emoção.

A instrumentalização política da violência não é novidade no Brasil, mas continua sendo um expediente condenável. Tragédias não podem servir como plataforma de campanha, independentemente de quem esteja no governo ou na oposição. A dor de uma família, a morte de um trabalhador e a tentativa de homicídio contra um parlamentar merecem respeito antes de qualquer cálculo eleitoral.

O Rio Grande do Norte precisa de respostas. Precisa que os responsáveis sejam presos e punidos. Precisa discutir segurança pública com seriedade. Mas precisa, sobretudo, que seus líderes compreendam que há momentos em que o silêncio responsável vale mais do que o discurso apressado. Quando a política transforma uma tragédia em palanque, perde-se um pouco da humanidade que deveria orientar o debate público. E isso é algo que nenhuma eleição justifica.