BUSCAR
BUSCAR
Saúde

Mudar hábitos ajuda a controlar a asma, aponta estudo

Além da melhora clínica, participantes apresentaram avanços na qualidade de vida, ansiedade, depressão e produtividade no trabalho
Por O Correio de Hoje
10/08/2026 | 14:13

Adultos com asma moderada a grave podem melhorar o controle da doença sem precisar iniciar uma rotina intensa de exercícios físicos. É o que mostra um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado em junho na revista Pulmonology. A pesquisa concluiu que estratégias voltadas para reduzir o sedentarismo ao longo do dia apresentaram resultados semelhantes aos de um programa supervisionado de treino aeróbico. Além disso, os benefícios obtidos com a mudança de hábitos pareceram se manter por mais tempo.

A asma é caracterizada pela inflamação crônica das vias aéreas e afeta 4,6% da população brasileira, segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Asma do Ministério da Saúde. Entre as crianças, esse percentual chega a 12,1%. Os principais sintomas incluem chiado e aperto no peito, falta de ar e tosse.

Homem segura um inalador para asma enquanto está sentado em uma cama
A asma é caracterizada pela inflamação crônica das vias aéreas e afeta 4,6% da população brasileira - Foto: magnific

Pessoas com asma moderada a grave costumam apresentar redução da capacidade para realizar atividades físicas quando comparadas a indivíduos saudáveis. Como consequência, também tendem a ser mais sedentárias. Nesse contexto, programas estruturados para melhorar a aptidão aeróbica e intervenções comportamentais voltadas ao aumento da atividade física cotidiana são utilizados como abordagens não farmacológicas para melhorar o controle clínico da doença.

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o estudo foi realizado no Hospital das Clínicas de São Paulo. Os pesquisadores acompanharam 52 adultos, com idades entre 18 e 65 anos, todos com asma moderada a grave, sedentários e com a doença mal controlada, apesar do tratamento medicamentoso.

Os participantes foram divididos em dois grupos. Metade realizou um programa de exercícios em esteira ergométrica durante 45 minutos, duas vezes por semana, com intensidade definida a partir de teste cardiopulmonar. A outra metade recebeu uma pulseira capaz de vibrar quando a meta diária de passos era atingida ou quando o usuário permanecia mais de uma hora sem se movimentar. Esse grupo também participou de sessões semanais de orientação voltadas à criação de novos hábitos.

Após oito semanas, os dois grupos apresentaram melhora semelhante no controle da asma. Os pesquisadores também observaram avanços na qualidade de vida, redução dos sintomas de ansiedade e depressão e aumento da produtividade no trabalho entre os participantes das duas intervenções.

O acompanhamento continuou por mais quatro meses após o fim das atividades. Nesse período, os pesquisadores identificaram uma diferença entre as estratégias. Enquanto os efeitos obtidos pelo treinamento em esteira diminuíram com o passar do tempo, os participantes que adotaram mudanças na rotina diária mantiveram praticamente os mesmos benefícios.

“A manutenção do efeito grande no grupo de intervenção comportamental, em contraste com o declínio do treino aeróbio, pode sugerir uma sustentabilidade superior das estratégias de mudança de estilo de vida”, explica o fisioterapeuta David Halen Araujo Pinheiro, pós-doutorando na FMUSP e primeiro autor do estudo.

Segundo ele, uma possível explicação é que os benefícios do treinamento físico dependem da continuidade de um estímulo estruturado e, em muitos casos, supervisionado. Já as mudanças de hábito tendem a ser incorporadas ao cotidiano, permitindo que os pacientes mantenham os novos comportamentos mesmo sem equipamentos ou acompanhamento.

Outro resultado observado pelos pesquisadores foi o comportamento dos participantes com obesidade que integravam o grupo da intervenção comportamental. Nesse grupo, não houve aumento no número de passos diários, indicando menor resposta à estratégia adotada.

De acordo com os autores, esse resultado reforça a hipótese de que pessoas que convivem simultaneamente com obesidade e asma podem responder de forma diferente a esse tipo de intervenção.

“A obesidade piora a asma por mecanismos como redução do volume pulmonar e do calibre das vias aéreas, inflamação sistêmica de baixo grau e pelas comorbidades associadas, como refluxo e apneia do sono”, explica o pneumologista Guylherme Saraiva, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.

Segundo o especialista, esse conjunto de fatores torna o esforço físico e respiratório mais difícil, favorecendo um ciclo em que a menor disposição para praticar atividades físicas contribui para o ganho de peso e para o pior controle da asma.

Os pesquisadores também destacam limitações do estudo. O programa de exercícios na esteira teve duração de apenas oito semanas, período inferior ao da maioria dos estudos anteriores, que normalmente se estendem por três meses. Além disso, os grupos iniciaram a pesquisa com diferentes índices de massa corporal (IMC), embora os autores ressaltem que essa diferença não influenciou os demais resultados.

Ainda assim, os cientistas afirmam que este é o primeiro estudo a comparar diretamente as duas estratégias e acompanhar os participantes por meses após o encerramento das intervenções.

Os resultados da pesquisa indicam que aumentar a atividade física diária não significa adotar imediatamente uma rotina intensa de exercícios.

“Levantar a cada hora, subir escadas, ir a pé até o mercado e caminhar dez minutos após o almoço já quebram o comportamento sedentário, que é o alvo real do tratamento”, orienta Saraiva.

Segundo ele, à medida que esses hábitos passam a fazer parte da rotina, o volume de atividade física tende a aumentar naturalmente, acompanhado de maior confiança para realizar exercícios.

Apesar disso, a prática de atividade física continua sendo recomendada para pessoas com asma em todos os graus de gravidade, da forma leve à grave. Entre as orientações estão manter a medicação de controle em dia, ter o medicamento de resgate disponível e realizar um aquecimento de cinco a dez minutos antes do exercício, medida que ajuda a reduzir a broncoconstrição induzida pelo esforço.

“Se os sintomas ao exercício forem recorrentes, ajusta-se o tratamento em vez de abandonar a atividade. A modalidade deve ser a que o paciente vai manter, com cautela apenas em piscinas muito cloradas, ar frio e seco e dias de alta poluição”, afirma Saraiva.

Os especialistas ressaltam, porém, que nem a prática de exercícios físicos nem as mudanças de hábitos substituem o tratamento medicamentoso da asma. As duas estratégias devem ser adotadas como complemento à terapia prescrita pelo médico, e não como alternativa aos medicamentos.