A expectativa de retomada da reforma do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Complexo Hospitalar Monsenhor Walfredo Gurgel ocorre após cerca de dois anos de intervenções sem conclusão e em meio à redução da capacidade de atendimento da unidade. Segundo o coordenador do CTQ, Marco Almeida, o centro, que funcionava com 20 leitos, passou a operar com 10 a 12 vagas improvisadas, além de enfrentar problemas estruturais enquanto aguarda a contratação de uma nova empresa.
“Nós tivemos um grande comprometimento na qualidade assistencial e, inclusive, do ponto de vista quantitativo. De um centro de 20 leitos, acabamos em 10, no máximo 12 leitos improvisados. As enfermarias estão com problemas seríssimos de goteira quando chove”, afirmou Marco Almeida.

A obra foi iniciada em 2024 com previsão de execução em poucos meses, mas passou por sucessivos problemas contratuais: uma primeira empresa deixou os serviços antes da conclusão e, depois, uma nova contratação também acabou rescindida. A coordenação do CTQ estima que menos de 5% da intervenção tenha sido efetivamente concluída — um relatório do engenheiro responsável pela fiscalização chegou a apontar execução de apenas 2,33% dos serviços após quase 150 dias de uma das ordens de serviço.
Enquanto a terceira contratação é preparada, parte da estrutura permanece indisponível. O ambulatório especializado, que tinha acesso externo, foi transferido para dentro da área de internação do próprio CTQ. Marco Almeida afirma que a mudança não é adequada às características do serviço, uma vez que pacientes queimados necessitam de cuidados adicionais para diminuir a exposição a agentes infecciosos.
“O ambulatório foi desativado, ele tinha um acesso externo e hoje ele está dentro do CTQ. Vocês imaginem que o CTQ tem que ser um setor fechado, até para a gente ajudar a diminuir a incidência de infecções. E entrando pessoas externas dentro do CTQ, isso aí não é adequado, mas é a maneira que nós temos de poder continuar assistindo a sociedade”, disse.
Inspeções realizadas pelo Ministério Público do RN (MPRN), pela Defensoria Pública e pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern) já haviam apontado problemas na estrutura: infiltrações, goteiras, forros danificados, climatização central desligada, poeira, escombros e fiação exposta em áreas próximas aos pacientes. As vistorias também constataram a desativação de espaços como sala de balneoterapia, sala exclusiva para curativos, ginásio de reabilitação, leitos de isolamento e semi-intensivos e repouso médico. Algumas atividades terapêuticas passaram a ser realizadas em corredores.
Demanda em alta
A perda de estrutura ocorreu ao mesmo tempo em que aumentou a demanda pelo atendimento especializado. Nos seis meses anteriores a junho, o número de internações passou de aproximadamente 80 para 160, crescimento de 100%. Em vistoria realizada pelo Cremern em junho, 21 pacientes queimados estavam sob responsabilidade da equipe, embora somente 12 estivessem acomodados nas enfermarias.
O cenário ganha peso porque o CTQ do Walfredo Gurgel é o único centro público especializado no tratamento de queimaduras no Rio Grande do Norte. A unidade recebe pacientes encaminhados de diferentes municípios e também casos provenientes da rede privada — com a redução da estrutura, não existe outra unidade pública equivalente no Estado para absorver a demanda.
A Defensoria Pública também apontou aumento no número de mortes relacionadas a queimaduras durante o período. Conforme informações reunidas na ação judicial, houve um óbito em 2024, enquanto entre seis e oito mortes já haviam sido contabilizadas nos primeiros meses de 2026.
O processo judicial ainda registra déficit de profissionais: segundo os dados apresentados na ação, o CTQ não dispõe de clínico-geral no período noturno nem de enfermeiro ou responsável técnico de enfermagem em regime exclusivo durante as 24 horas. A equipe de reabilitação também atua com quantidade de profissionais abaixo da recomendação do Ministério da Saúde.
A retomada das obras deverá exigir uma nova mudança na rotina da unidade. A previsão é de que o atendimento seja transferido temporariamente para outro setor do próprio Hospital Walfredo Gurgel enquanto os serviços forem realizados, em local ainda a definir pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), direção do hospital e coordenação do centro. “A gente vai ter que ver junto à Sesap e à direção do hospital. Provavelmente, um setor do Walfredo Gurgel vai ter que ser direcionado para que nós façamos essa mudança temporária”, afirmou Marco Almeida.
Entre os serviços previstos na reforma estão a substituição da rede elétrica, troca de portas e criação de uma sala de recuperação, além da adequação dos ambientes utilizados por pacientes e profissionais.
O relato foi publicado na edição desta terça-feira 1º do jornal O Correio de Hoje.
A sessão pública da Dispensa Emergencial nº 114/2026 está marcada para sexta-feira 4, às 9h, na sede da Secretaria de Estado da Infraestrutura — o Agora RN mostrou que a reforma está orçada em R$ 2.087.744,48, com prazo de 90 dias (leia mais).