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Ciência

Estudo com mais de 1 milhão de genomas acha 1.260 marcadores genéticos ligados à personalidade

Pesquisa publicada na Nature mostra que o DNA explica de 5% a 10% das diferenças de temperamento e que genes e experiências agem sempre juntos
Agora RN
18/09/2026 | 17:06

Tem gente que adora uma festa cheia de desconhecidos e gente que prefere ficar em casa. Algumas pessoas se preocupam com quase tudo; outras atravessam situações incertas sem grande ansiedade. Uma pesquisa sobre genética e personalidade indica que parte dessas diferenças pode estar ligada a algo que acompanha cada um desde antes do nascimento: o DNA.

Um estudo feito por um consórcio internacional de cientistas analisou mais de 1 milhão de genomas, o conjunto completo de genes de cada pessoa, atrás de variações genéticas associadas à personalidade. O trabalho encontrou 1.260 marcadores ligados a características individuais, e quase dois terços deles nunca tinham sido descritos.

Ilustração digital de fita de DNA e células em tons de azul e rosa
Imagem ilustrativa; estudo com mais de 1 milhão de genomas encontrou 1.260 marcadores ligados à personalidade — Arquivo Agora RN

Os resultados, publicados na revista científica britânica Nature, uma das mais prestigiadas do mundo, reforçam uma ideia que a genética do comportamento vem construindo há décadas. Não existe um gene da ansiedade, da vontade de conviver com os outros ou do gosto pela aventura. A personalidade parece nascer, em parte, da soma de milhares de pequenas diferenças no DNA, cada uma com efeito discreto.

Os pesquisadores juntaram dados de 46 grupos de estudo diferentes e olharam para traços dos chamados Cinco Grandes fatores da personalidade: extroversão, amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura a novas experiências. São as dimensões que a psicologia usa para medir tendências relativamente estáveis na forma como alguém pensa, sente e age.

O tamanho da amostra permitiu achar associações que estudos menores dificilmente enxergariam. Para separar o peso do DNA do que poderia ser explicado pelo ambiente da família, os cientistas também compararam dados genéticos de milhares de irmãos e de pares de pais e filhos.

Ainda assim, os 1.260 pontos do genoma apontados pelo estudo não dão conta de explicar tudo o que distingue o temperamento de uma pessoa do de outra. Somadas, as variantes comuns encontradas respondem por algo entre 5% e 10% da variação observada nos traços de personalidade.

Isso não quer dizer que o restante possa ser atribuído simplesmente ao ambiente. Genes e experiências não funcionam como duas parcelas independentes de uma soma. Uma tendência genética pode mudar a forma como alguém reage a determinada situação, e o ambiente pode alterar o jeito como certas tendências aparecem ao longo da vida.

Essa interação ajuda a entender por que crescer na mesma casa não produz, necessariamente, pessoas de temperamento parecido. Irmãos podem ter os mesmos pais, o mesmo endereço, a mesma escola e boa parte do DNA em comum e, ainda assim, desenvolver maneiras bem diferentes de se relacionar com o mundo.

A comparação entre familiares também ajudou a contornar um problema conhecido dos estudos genéticos. Em pesquisas sobre escolaridade, por exemplo, algumas associações atribuídas de início ao DNA podem refletir, na verdade, fatores como a renda dos pais e o ambiente doméstico. No estudo da personalidade, as análises feitas para controlar essas interferências mostraram que cerca de 96% da influência genética detectada vinha mesmo do DNA.

O trabalho marca ainda a volta da personalidade como tema da genética do comportamento. No fim do século passado, estudos com gêmeos tiveram papel central na tentativa de medir quanto das diferenças entre as pessoas vinha da herança genética. Nas últimas décadas, porém, os grandes levantamentos genéticos, com amostras cada vez maiores, passaram a se dedicar mais a doenças com uso clínico imediato, como a esquizofrenia.

Com o novo conjunto de dados, esse cenário pode mudar. Centenas de associações até então desconhecidas abrem caminho para investigar quais processos biológicos estão por trás das diferenças entre as pessoas e de que modo eles se combinam com tudo o que cada um vive.

O interesse não se limita a descobrir de onde vem o jeito extrovertido, a ansiedade, a organização ou a curiosidade por coisas novas de alguém. Os traços de personalidade costumam aparecer relacionados a várias áreas da vida, como a convivência social, a busca por cuidados médicos, a carreira e as amizades. Entender a origem dessas tendências, portanto, pode ajudar a compreender melhor escolhas e comportamentos que acompanham as pessoas por toda a vida.

O estudo não cria um teste capaz de olhar o DNA de alguém e dizer quem essa pessoa vai ser. Ao contrário, a quantidade de variantes encontradas mostra como essa previsão é complexa. O que os genes oferecem são inclinações, e cada uma delas vai tomando forma no convívio constante com vivências, chances e lugares que variam de pessoa para pessoa.

Nenhuma sequência de DNA traz, portanto, uma personalidade já montada. A pesquisa encontra no genoma milhares de pequenos sinais que, combinados com a história de cada um, ajudam a formar o conjunto de diferenças que leva duas pessoas a responder de modo diverso ao mesmo mundo.