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Saúde

Ministério da Saúde recomenda vacina contra HPV a partir dos 2 anos para crianças vítimas de violência sexual

Notificações de abuso contra crianças de até 4 anos passaram de 1.671 para 7.845 em dez anos; dose quadrivalente será aplicada nas salas de vacinação do SUS
Agora RN
18/09/2026 | 16:44

A vacina contra HPV poderá ser aplicada muito antes da adolescência num grupo específico de crianças: meninas e meninos que sofreram violência sexual. Para eles, a recomendação do Ministério da Saúde agora é imunizar a partir dos 2 anos de idade. A intenção é protegê-los do risco de contato com o vírus num momento em que as notificações de abuso infantil não param de crescer.

A mudança está numa nota técnica da pasta. A vacina indicada é a quadrivalente, que protege contra quatro tipos do papilomavírus humano, o HPV. A medida entra na rede de cuidado do Sistema Único de Saúde (SUS) e aproveita a estrutura já existente do Programa Nacional de Imunizações (PNI), responsável pelo calendário de vacinas do país.

Profissional de saúde aplica vacina no braço de uma criança
Imagem ilustrativa: vacinação infantil; dose contra o HPV passa a ser recomendada a partir dos 2 anos para vítimas de violência sexual — José Aldenir/O Correio de Hoje

A idade chama atenção, porque a vacinação de rotina contra o HPV no Brasil é feita principalmente no fim da infância e no começo da adolescência, antes do início da vida sexual. Para as vítimas de abuso, porém, o ministério avalia que o risco maior de contato com o vírus justifica adiantar a vacina.

Os números da violência contra crianças ajudam a explicar a decisão. O Atlas da Violência 2026, do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, reúne os registros de abuso sexual contra crianças. Na faixa de 0 a 4 anos, eram 1.671 notificações em 2014. Dez anos depois, em 2024, chegaram a 7.845, mais que o quádruplo.

Entre os 5 e os 14 anos, o salto na mesma década foi de 6.594 para 29.135 notificações. Olhando só para 2024, dois terços dos casos com crianças e adolescentes, 66%, estavam nessa faixa de 5 a 14 anos. As crianças de até 4 anos somavam 18%, e os adolescentes de 15 a 19, os 16% restantes.

A nova recomendação tenta agir sobre uma das consequências possíveis dessa violência, que pode aparecer muitos anos depois. O HPV está ligado a verrugas anogenitais, lesões nas vias respiratórias e vários tipos de câncer, entre eles os do colo do útero, do pênis, da vulva, da vagina, do canal anal e da orofaringe.

O câncer de colo do útero, sozinho, soma centenas de milhares de casos por ano no planeta. Pelas estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) citadas no documento, são cerca de 604 mil casos novos e 280 mil mortes por ano no mundo.

É importante entender o limite da medida. A vacina aplicada cedo não trata uma infecção que a criança possa ter pego durante a violência. O imunizante não tem efeito terapêutico depois da exposição e não elimina um HPV já contraído. O papel dele é proteger contra outros tipos do vírus incluídos na fórmula e reduzir os riscos de exposições futuras.

A segurança da aplicação em crianças pequenas também pesou na recomendação. Pesquisas clínicas com crianças de 4 a 6 anos, realizadas em países latino-americanos, mostraram que a quadrivalente é segura nessa idade, provoca a resposta de defesa esperada e mantém os anticorpos no organismo por no mínimo 36 meses, ou três anos.

A medida aproxima o programa brasileiro de vacinação de orientações internacionais sobre o tema. A OMS e a Associação Pan-Americana de Infectologia recomendam atenção específica às vítimas de violência sexual, pelo risco maior de exposição a infecções sexualmente transmissíveis.

Na prática, a vacina passa a integrar o acompanhamento que a Rede de Atenção à Saúde já oferece a essas crianças depois da violência. Depois do acolhimento, a dose poderá ser aplicada nas salas de vacinação do SUS, com a estrutura de armazenamento, distribuição e conservação da vacina quadrivalente que o PNI já usa.

O registro de cada dose também terá um caminho próprio nos sistemas do SUS. A dose entra nos sistemas oficiais do programa como estratégia especial, ligada ao código diagnóstico de violência sexual. Isso vai permitir acompanhar a vacinação e vigiar possíveis Eventos Supostamente Atribuíveis à Vacinação ou Imunização (Esavi), as reações que podem aparecer depois da dose.

O texto da recomendação foi preparado pelo Departamento do Programa Nacional de Imunizações, em conjunto com outras áreas do Ministério da Saúde, com sociedades científicas, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

Ao antecipar a vacina para crianças a partir dos 2 anos nesse contexto, o SUS acrescenta mais uma camada de prevenção ao atendimento depois da violência. A dose, claro, não desfaz uma exposição que já aconteceu, mas tenta reduzir consequências que poderiam surgir anos mais tarde.