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Saúde

Sódio escondido em ultraprocessados pressiona o coração e eleva risco de hipertensão em até 23%

Estudo com 8.754 brasileiros do ELSA-Brasil ligou consumo alto desses produtos à pressão alta; rótulo e comida feita em casa ajudam a reduzir o sal
Agora RN
18/09/2026 | 16:45

O excesso de sódio no prato nem sempre vem do saleiro. O mineral está escondido no refrigerante, no biscoito recheado, na salsicha e no presunto e naquela comida pronta que resolve o jantar quando não dá tempo de cozinhar. Quando esses ultraprocessados entram todo dia no cardápio, a conta de sódio sobe e alimenta um problema que costuma não dar sinais: a pressão alta, ou hipertensão arterial.

O estrago começa por dentro, nos vasos sanguíneos. Quando há sódio demais no sangue, mais água é atraída para os vasos. Com mais líquido correndo pelas veias e artérias, as paredes delas sofrem mais pressão, e o coração tem de fazer mais força para bombear o sangue.

Corredor de supermercado com prateleiras cheias de produtos industrializados, em preto e branco
Imagem ilustrativa: produtos industrializados no supermercado; sódio escondido em ultraprocessados eleva o risco de hipertensão — José Aldenir/O Correio de Hoje

Com o passar dos anos, a pressão alta pode causar lesões ou esticar demais as paredes dos vasos, que perdem a elasticidade. Com isso, ficam mais fáceis de se formar as placas de gordura que estreitam os vasos e atrapalham a passagem do sangue, aumentando o risco de problemas cardiovasculares.

Pesquisas feitas aqui no Brasil também confirmam a relação entre o que se come e a pressão. Liderado por Patricia de Oliveira da Silva Scaranni, um trabalho publicado na revista científica Public Health Nutrition seguiu 8.754 voluntários do ELSA-Brasil, sigla do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto.

No começo da pesquisa, nenhum deles tinha pressão alta diagnosticada, e as idades iam de 35 a 74 anos. Eles foram acompanhados pelos pesquisadores, em média, durante 3,9 anos. Nesse grupo, os ultraprocessados respondiam por 25,2% de toda a energia consumida por dia, em média.

A diferença apareceu quando os pesquisadores compararam os hábitos alimentares de cada grupo. Quem comia mais ultraprocessados teve risco até 23% maior de desenvolver hipertensão ao longo do acompanhamento do que quem consumia menos desses produtos.

O problema desses alimentos, porém, não se resume ao sódio. A quantidade alta de gordura saturada e de certos aditivos nesses alimentos também foi associada ao endurecimento precoce das artérias, condição que aumenta a pressão do sangue sobre as paredes dos vasos.

Esses produtos industrializados, do refrigerante à refeição congelada, passando pelo biscoito e pela carne processada, conquistaram espaço na rotina por serem práticos. A frequência com que são consumidos, porém, faz com que ingredientes que quase ninguém percebe, como o sódio, se acumulem ao longo do dia.

A associação americana do coração, a American Heart Association, uma das principais referências na área, liga o excesso de sódio à pressão mais alta. Isso quer dizer que controlar o sódio depende não só do sal colocado na panela, mas também do que já vem nos produtos comprados prontos.

Um dos caminhos para reduzir o consumo é cozinhar mais em casa, o que dá mais controle sobre o que vai para a panela e em que quantidade. Temperos naturais, como ervas e especiarias, podem ocupar parte do lugar do sal, e alimentos em conserva, como azeitona e palmito, podem ser lavados antes de consumidos para tirar parte do sódio.

Ler o rótulo com atenção também ajuda bastante. Pôr lado a lado dois produtos parecidos e olhar quanto sódio cada um tem por porção permite levar o que tem menos. Avisos na embalagem como “baixo teor”, “reduzido” ou “livre de sódio” servem de guia na hora da compra.

A atenção à alimentação ganha força neste mês, o Setembro Vermelho, dedicado à conscientização e à prevenção das doenças do coração e dos vasos, as cardiovasculares. Reduzir os ultraprocessados e colocar mais comida natural no prato estão entre as mudanças que podem diminuir a exposição diária ao excesso de sódio.

O cuidado com o coração, portanto, não começa só quando a pressão sobe. Passa também pelo carrinho do supermercado e pelas escolhas repetidas todo dia. Numa alimentação em que boa parte das calorias do dia pode vir de ultraprocessados, descobrir onde o sódio está escondido é uma forma de aliviar o peso que a rotina alimentar coloca sobre o coração.