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Editorial

Empresas diante de uma sociedade cada vez mais doente

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 26
Redação
26/05/2026 | 05:44

Nesta terça-feira 26, entra em vigor uma mudança importante para o mundo do trabalho no Brasil. As empresas passam a ter de incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. Na prática, fatores como metas abusivas, pressão excessiva, assédio moral, sobrecarga, jornadas desorganizadas, falhas de comunicação e falta de apoio das chefias passam a integrar formalmente a agenda de segurança e saúde no trabalho.

A medida é necessária. Mas precisa ser compreendida na dimensão correta. O adoecimento mental que agora bate à porta das empresas não nasceu apenas dentro delas. Ele é parte de uma crise muito mais ampla, espalhada pela sociedade, pelas famílias, pelas escolas, pelas redes sociais, pelas relações afetivas, pela insegurança econômica, pela violência, pela solidão, pelo excesso de telas e por um mundo cada vez mais instável, acelerado e emocionalmente exaustivo.

Empresas diante de uma sociedade cada vez mais doente - Foto:

Os números mostram isso com clareza. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 1 bilhão de pessoas vivam hoje com transtornos de saúde mental no mundo. Um estudo global baseado no Global Burden of Disease apontou que, em 2023, 1,17 bilhão de pessoas tinham algum transtorno mental, contra 599 milhões em 1990. É quase o dobro em pouco mais de três décadas. Mesmo com crescimento populacional e melhor diagnóstico, a taxa padronizada por idade também subiu, sinalizando que não se trata apenas de mais gente no planeta, mas de uma carga real maior de sofrimento psíquico.

No Brasil, a realidade segue a mesma direção. A Pesquisa Nacional de Saúde mostrou que o diagnóstico autorreferido de depressão em adultos subiu de 7,6% em 2013 para 10,2% em 2019, o equivalente a cerca de 16,3 milhões de pessoas naquele ano. O Ministério da Saúde estima ainda que a prevalência de depressão ao longo da vida no país chegue a 15,5%. São dados da população geral, não de um segmento profissional específico.

Entre adolescentes, o alerta é ainda mais forte. A PeNSE 2024 mostrou que 42,9% dos estudantes relataram irritação, nervosismo ou mau humor frequente, e 18,5% disseram pensar sempre ou na maioria das vezes que a vida não vale a pena ser vivida. Esse dado desmonta qualquer leitura simplista de que o adoecimento mental seja fenômeno criado apenas pelo ambiente corporativo. Parte expressiva dessa crise já aparece antes mesmo da entrada plena no mercado de trabalho.

A pandemia agravou o quadro. Segundo a OMS, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou 25% apenas no primeiro ano da Covid-19. O isolamento, o luto, o medo, a perda de renda, a interrupção de rotinas, a solidão e a incerteza coletiva deixaram marcas profundas. A isso se somam outros fatores contemporâneos: endividamento, violência urbana, desestruturação familiar, cyberbullying, comparação permanente nas redes sociais, dependência digital, insegurança alimentar, uso abusivo de álcool e drogas e dificuldade de acesso a tratamento.

Portanto, é preciso dizer com honestidade: o trabalhador não entra na empresa como uma página em branco. Ele chega com suas angústias, dívidas, problemas familiares, medos, traumas, frustrações, perdas e pressões. A crise mental que aparece no expediente muitas vezes começou fora dele.

Mas essa constatação não isenta as empresas de responsabilidade. Se o trabalho não criou toda a crise, ele pode agravá-la. Uma organização marcada por humilhação, cobrança desumana, metas impossíveis, chefias tóxicas, jornadas exaustivas, insegurança permanente e ausência de diálogo pode transformar sofrimento prévio em colapso. Pode converter uma dificuldade pessoal em afastamento, litígio, improdutividade e adoecimento ocupacional.

É justamente nesse ponto que a nova regra faz sentido. Ela não diz que toda ansiedade é culpa da empresa. Não transforma automaticamente todo transtorno mental em doença do trabalho. O que ela estabelece é que o empregador precisa olhar para aquilo que controla: o modo como organiza, cobra, lidera, comunica, distribui tarefas, previne assédio e protege a dignidade de quem trabalha.

O Brasil concedeu, em 2025, 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% em relação ao ano anterior. No Rio Grande do Norte, foram 8.339 concessões. Os transtornos ansiosos e os episódios depressivos lideram os afastamentos. Esses números revelam que a crise social da saúde mental já chegou ao sistema produtivo.

A boa empresa não deve tratar a nova exigência como mera burocracia. Mapear riscos psicossociais, treinar lideranças, rever metas abusivas, combater assédio, organizar jornadas e criar canais seguros de escuta não é modismo nem concessão sentimental. É prevenção, gestão responsável, proteção jurídica e respeito humano.

Também seria injusto, porém, jogar sobre o empregador o peso integral de uma sociedade adoecida. Governos, famílias, escolas, sistema de saúde, comunidades e plataformas digitais também precisam responder. A saúde mental exige acesso a tratamento, políticas públicas, educação emocional, fortalecimento de vínculos, combate à violência e uma reflexão séria sobre o modo de vida que estamos construindo.

A nova regra nasce em boa hora. Mas sua aplicação precisa evitar dois erros: culpar apenas as empresas por uma crise que é social ou permitir que empresas usem os problemas externos como desculpa para manter ambientes internos tóxicos.

A verdade está no meio, mas não é fraca. O sofrimento pode vir de fora. Mas, se encontra dentro da empresa um ambiente abusivo, sai maior do que entrou.