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Editorial

O terror político de Flávio Bolsonaro

Confira o editorial do Agora RN deste sábado 16
Redação
16/05/2026 | 05:41

A primeira prova de resistência da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto produziu um resultado desastroso. A divulgação de que o senador cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro recursos para, em tese, financiar um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro não apenas revelou a fragilidade política do primogênito do ex-presidente. Expôs também uma insuficiência moral incompatível com a pretensão de governar o Brasil.

O episódio reforça a necessidade de a direita democrática trabalhar por uma alternativa conservadora séria, vinculada à Constituição e a padrões elementares de decência pública, capaz de disputar a Presidência sem entregar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mais quatro anos para aprofundar os danos ao País. Para isso, esse campo político precisa deixar de gravitar em torno de Jair Bolsonaro e de sua família, cuja vida pública tem sido marcada por inclinação antidemocrática, escândalos sucessivos, mistura entre interesses públicos e privados e permanente desprezo por limites morais.

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O terror político de Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução

As conversas reveladas pelo site Intercept Brasil e confirmadas pelo Estadão tornaram esse quadro ainda mais nítido. O material mostra a proximidade entre um senador da República, hoje interessado em comandar o País, e um banqueiro já apontado, naquele período, como suspeito de protagonizar o maior crime contra o sistema financeiro nacional.

Conforme documentos da Polícia Federal divulgados pelo site, Flávio Bolsonaro tratou diretamente com Vorcaro de um valor equivalente a US$ 24 milhões para viabilizar Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente. Desse montante, US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.

A reação inicial de Flávio foi negar. Ao ser questionado por jornalistas, afirmou que a informação era “mentira”. Quando as provas apareceram, o senador precisou admitir que havia, sim, pedido o dinheiro, embora tenha insistido na tese de que a relação era “privada” e não envolvia recursos públicos.

Essa explicação não resolve o problema. O ponto essencial não está apenas na natureza pública ou privada do dinheiro, mas em sua origem. A fortuna de Daniel Vorcaro não decorre de uma trajetória empresarial exemplar, construída dentro da legalidade. Segundo a PF, o banqueiro acumulou patrimônio por meio de fraudes bancárias, algumas delas envolvendo fundos de previdência de servidores públicos em Estados e municípios, além do Banco de Brasília (BRB). Ao mesmo tempo, montou uma rede de influência nos Três Poderes, aparentemente sustentada por muito dinheiro. Nada disso era segredo quando Flávio conversou com ele.

O centro da questão, portanto, é outro. Flávio Bolsonaro não era um cidadão comum em busca de apoio financeiro de um patrocinador qualquer. Era um senador da República, com ambições presidenciais, tentando obter milhões de dólares de um personagem notório por suspeitas gravíssimas, preso no dia seguinte à conversa.

Também causa constrangimento o tom de intimidade usado por Flávio com Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”, disse o senador. A frase revela uma relação de confiança, proximidade e possível “gratidão política”, para usar uma formulação generosa, que torna a negociação ainda mais comprometedora.

A explicação improvisada do entorno bolsonarista só agravou as dúvidas. O deputado Mário Frias (PL-SP), produtor do filme, afirmou expressamente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”. Se isso é verdade, resta a pergunta inevitável. Para onde iria o dinheiro cobrado pelo senador?

Não se trata de antecipar condenações. Mas é impossível censurar quem veja na relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro indícios que podem levantar suspeitas de lavagem de dinheiro, caixa dois ou enriquecimento ilícito. Um pré-candidato à Presidência envolvido em transações dessa natureza tem obrigação de oferecer explicações sólidas ao País. Até agora, Flávio Bolsonaro não o fez. Preferiu negar, atacar a imprensa e tratar a inteligência pública com deboche.