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Editorial

Governo acerta ao apoiar motoristas, mas erra na ordem das prioridades

Confira o editorial do Agora RN desta quinta-feira 21
Redação
21/05/2026 | 05:36

É positiva a iniciativa do Governo Federal de lançar uma linha de crédito de R$ 30 bilhões para taxistas e motoristas de aplicativo adquirirem veículos novos. Trata-se de uma categoria que movimenta diariamente milhões de brasileiros, presta um serviço essencial e, em muitos casos, trabalha sem qualquer rede de proteção social, submetida a jornadas exaustivas e às regras rígidas das plataformas digitais. Dar acesso a financiamento com juros subsidiados é uma forma de reconhecer a importância desses profissionais e de melhorar suas condições de trabalho.

O programa “Move Aplicativos” permitirá o financiamento de veículos de até R$ 150 mil, com prazo de até seis anos e carência de seis meses.

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Governo acerta ao apoiar motoristas, mas erra na ordem das prioridades - Foto: STTU/Reprodução

Não há dúvida de que a iniciativa atende a uma demanda real. Muitos motoristas dependem do aluguel de veículos, comprometendo parte significativa da renda mensal.

O problema não está aí, e sim na prioridade escolhida.

O Brasil vive uma crise prolongada no transporte coletivo urbano. A perda de passageiros, o aumento das gratuidades, a concorrência dos aplicativos e a ausência de fontes permanentes de financiamento colocaram em xeque a sustentabilidade do sistema em praticamente todas as grandes cidades do País. O resultado é conhecido: tarifas elevadas, frota envelhecida, redução de linhas e um serviço cada vez menos atrativo.

Os números da Confederação Nacional do Transporte são eloquentes. Em 2017, o transporte coletivo respondia por 49,8% das viagens urbanas no país. Em 2024, essa participação caiu para 31,7%. No mesmo período, os deslocamentos individuais passaram a representar 68,3% das viagens realizadas nas cidades brasileiras.

Esse movimento tem efeitos concretos e negativos. Mais carros e motos nas ruas significam mais congestionamentos, mais poluição, mais acidentes e maior pressão sobre uma infraestrutura urbana já saturada. É um modelo de mobilidade que encarece as cidades e piora a qualidade de vida.

O transporte coletivo, por sua vez, continua sendo o principal meio de deslocamento da população de menor renda. É ele que garante acesso ao trabalho, à escola, aos hospitais e aos serviços públicos. Além disso, é a modalidade mais eficiente para transportar grandes contingentes de pessoas, ocupando menos espaço viário e emitindo menos poluentes por passageiro.

Por isso, antes de direcionar R$ 30 bilhões ao transporte individual, o governo poderia ter priorizado um sistema que atende milhões de brasileiros diariamente e que cumpre função social e ambiental estratégica, mais alinhada aos compromissos que o próprio País assume perante o mundo.

Essa possibilidade já está em debate. O próprio governo estuda a criação de um novo modelo de financiamento para o transporte público, apelidado de “SUS do Transporte Público”, com o objetivo de reduzir ou até zerar as tarifas em todo o país. Estudos apontam que o custo de uma política dessa natureza seria de aproximadamente R$ 65 bilhões por ano.

Seria um investimento com potencial de transformar a mobilidade urbana brasileira. Ao aliviar o custo da passagem, fortaleceria o transporte coletivo, reduziria a dependência do automóvel e beneficiaria diretamente as camadas mais vulneráveis da população.

Mas o governo preferiu, neste momento, apostar fichas nos motoristas de app e taxistas.

Por todos os motivos já expostos, o que parece é que o governo age movido mais pelo interesse eleitoral do que pelo interesse de fazer a boa política pública. Afinal, é notório que a categoria dos motoristas de app e taxistas é resistente ao PT. Quem não quer um cabo eleitoral que transporta dezenas, ou até centenas, de passageiros por dia?

É natural que qualquer governo busque ampliar pontes com grupos específicos da sociedade. O problema surge quando a formulação de políticas públicas parece orientada mais pelo calendário eleitoral do que pela lógica do interesse coletivo.

A mobilidade urbana exige visão de longo prazo. Cidades mais eficientes e sustentáveis dependem de transporte coletivo forte, financeiramente equilibrado e capaz de oferecer qualidade à população. Esse é o caminho adotado pelas metrópoles que conseguiram reduzir congestionamentos e melhorar o ambiente urbano.

O crédito para motoristas de aplicativo é uma medida legítima e socialmente defensável. Mas o País continuará atacando apenas os efeitos, e não as causas, enquanto não enfrentar com prioridade a crise do transporte coletivo.

Políticas públicas devem ser guiadas por critérios de eficiência, equidade e impacto social duradouro. Em matéria de mobilidade, isso significa colocar o transporte de massa no centro das decisões. O apoio aos motoristas é importante. Mas o ônibus, que carrega a maior parte da população e sustenta o funcionamento das cidades, deveria vir primeiro.