Por que servidores das universidades fizeram greve com Lula e não com Bolsonaro? Essa pergunta é constante. Apesar do elemento maldoso de fundo, a resposta é mais simples do que parece. Sim, os anos de bolsonarismo foram muito duros nos ataques verbais diretos e cortes de orçamento contra o ensino federal. Fake news viraram moeda corrente de deslegitimação contra docentes – falsas acusações sobre doutrinação, plantação de maconha e até a junção de educação com pedofilia passaram a fazer parte da paisagem política. Tratava-se de uma gestão (sic) que escancarava o ódio à ciência. Não é bom esquecer que, enquanto Olavo de Carvalho era idolatrado, Paulo Freire virou símbolo de tudo a ser extirpado.
E por que não ocorreram paralisações? A questão é que os servidores ficaram com medo do desmantelamento do funcionalismo e a estratégia bolsonarista de processar administrativamente os servidores críticos do governo. E daí não quiseram abrir brecha para a campanha de ataque aos institutos e às universidades. Ainda assim, pesquisadores foram processados e sofreram perseguição em suas unidades de ensino. As instituições perderam o direito conquistado de eleger seus reitores, com a banalização da intervenção em institutos e universidades federais. Não foi um período fácil.

É por isso que, em certo sentido, representa um ponto para o governo Lula o fato de os professores universitários só entrarem em greve agora. Há uma insatisfação por crise de expectativa contra a atual administração, e Lula, como um sindicalista que foi, terá de entrar em campo para equacionar sentimentos, interesses e perspectivas para o futuro. Mas, de alguma forma, os citados servidores enxergam nesse governo a capacidade de entender a greve como um direito, algo que não estava posto antes. Não é pouca coisa.
Cabe ainda entender que governos não se enfraquecem a partir de paralisações. Eles carecerão de pujança diante de um novo ciclo eleitoral se perderem a capacidade de responder aos anseios da sociedade. E, ora, Lula já negociou com Banco Central, auditores, funcionários do INSS e policiais e é chegada a hora de conversar com as universidades, na exata medida de ajustar o ponto de equilíbrio entre o interesse difuso geral e aqueles que são concentrados e típicos de quem quer elevação salarial.
Jair Bolsonaro não se reelegeu porque achou que os setores organizados da sociedade civil eram um detalhe. Lula só será prejudicado por uma greve se for pelo mesmo caminho. Por enquanto, não é o horizonte estabelecido.