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Editorial

O retrato da saúde mental dos jovens no RN

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 27
Redação
27/03/2026 | 05:58

Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados pelo IBGE, são aterradores. No Rio Grande do Norte, 15,3% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram que sentem, na maior parte do tempo ou sempre, que a vida não vale a pena ser vivida. Em Natal, esse percentual chega a 17,5%. Em termos práticos, trata-se de aproximadamente um em cada dez adolescentes convivendo com esse tipo de percepção sobre a própria existência.

O dado, por si só, já exige atenção. Mas ele não está isolado. Quando se observa o recorte por gênero, a diferença se amplia de forma significativa. No estado, 20,5% das meninas relataram esse sentimento, contra 10,3% dos meninos. Na capital, os índices são de 23,8% entre mulheres e 11,1% entre homens. A disparidade se repete em escala nacional: 25,0% das estudantes brasileiras declararam sentir que a vida não vale a pena, enquanto entre os homens o percentual é de 12,0%.

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O retrato da saúde mental dos jovens no RN - Foto: José Aldenir/Agora RN

A análise dos dados mostra que esse não é um fenômeno pontual ou localizado. No Brasil, 18,5% dos estudantes relataram esse sentimento, e no Nordeste o índice alcança 19,2%. O Rio Grande do Norte, portanto, se insere em um contexto mais amplo, mas com características próprias que merecem atenção, especialmente quando se observa a intensidade de alguns indicadores na capital.

Outro ponto relevante diz respeito à frequência de sentimentos de tristeza. No Estado, 25,9% dos estudantes afirmaram ter se sentido tristes na maior parte do tempo ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa. Entre as meninas, o percentual é de 37,9%, enquanto entre os meninos é de 14,1%. Em Natal, esse índice chega a 28,9%. Mais uma vez, a diferença entre os grupos revela que determinados segmentos estão mais expostos a esse tipo de experiência emocional.

O levantamento também aponta que 30,2% dos estudantes potiguares disseram ter sentido vontade de se machucar de propósito ao menos uma vez nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre as meninas, o percentual atinge 41,1%, enquanto entre os meninos é de 19,5%. Trata-se de um dado que amplia o entendimento do problema e indica que não se trata apenas de sentimentos momentâneos, mas de manifestações que podem envolver riscos mais amplos.

A pesquisa avança ainda sobre aspectos do ambiente familiar. No Rio Grande do Norte, 35,9% dos alunos de escolas públicas e 33,2% das escolas privadas relataram que os pais ou responsáveis não compreenderam seus problemas e preocupações. Entre as mulheres, esse percentual é de 38,4%, e entre os homens, de 32,4%. Além disso, 49,0% dos estudantes disseram ter se sentido muito preocupados com questões do dia a dia na maior parte do tempo ou sempre no período analisado. Entre as meninas, o índice sobe para 59,4%.

Outro dado relevante indica que 33,0% dos estudantes afirmaram que pais ou responsáveis mexeram em seus pertences sem consentimento nos 30 dias anteriores à pesquisa. Embora não seja, isoladamente, um indicador direto de sofrimento psíquico, o número contribui para compor o quadro de relações e percepções no ambiente doméstico.

A leitura conjunta desses indicadores aponta para um cenário preocupante. Os dados ajudam a dimensionar o nível de fragilização da saúde mental dos nossos jovens. Há uma combinação de fatores — emocionais, sociais e relacionais — que atravessam a experiência dos adolescentes e que se manifestam de maneira desigual entre grupos, especialmente quando se observa o recorte de gênero.

Diante disso, os números apresentados pela PeNSE não podem ser reduzidos a estatísticas frias ou a registros pontuais. Eles demandam interpretação, contexto e, sobretudo, disposição para compreender o que está por trás de cada percentual. A pesquisa oferece uma base objetiva para esse exercício: mostra a dimensão do fenômeno, identifica padrões e evidencia desigualdades.

A partir desses dados, cabe à sociedade — em suas diferentes esferas — assumir a responsabilidade de olhar para essa realidade de forma direta. Isso implica reconhecer que os indicadores existem, que afetam uma parcela significativa dos jovens e que não se distribuem de maneira homogênea.

Mais do que respostas imediatas, o que se coloca é a necessidade de leitura qualificada desses números. Entender as causas, os contextos sociais, as dinâmicas familiares e escolares que ajudam a explicar por que determinados grupos apresentam índices mais elevados é um passo necessário para qualquer abordagem futura.

A PeNSE cumpre, nesse sentido, um papel central: oferece evidências. O que se faz com elas, no entanto, depende da capacidade de interpretação e do compromisso coletivo em não ignorar o que os dados mostram.