O Rio Grande do Norte precisa de vontade política e visão com planejamento para que problemas conhecidos há décadas sejam efetivamente enfrentados. Esse é o dever de casa que qualquer cidadão disposto a assumir o Governo do Estado a partir de janeiro do próximo ano terá de cumprir.
Os números mostram com clareza a dimensão da crise estrutural que limita o desenvolvimento potiguar. Sem uma postura contundente, dificilmente o quadro vai mudar.

Os dados mais recentes da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) revelam um quadro preocupante. Em 2025, as despesas com pessoal e encargos consumiram 75% de toda a receita do Estado. Outros 21% foram destinados ao custeio da máquina pública e 2% ao pagamento de serviços da dívida. Restaram apenas 4% para investimentos — o menor percentual entre todos os estados brasileiros. O contraste com a vizinha Paraíba ajuda a dimensionar o problema. Lá, os investimentos representaram 13% da receita estadual, o 6º maior índice do País. Vale lembrar que a Paraíba tem um PIB menor que o do RN.
A consequência desse desequilíbrio é direta: o Rio Grande do Norte tem pouca capacidade de financiar o próprio desenvolvimento. Estradas, infraestrutura logística, modernização administrativa, políticas estruturantes de educação e inovação dependem de recursos que simplesmente não existem no orçamento. O Estado segue administrando a escassez.
Esse cenário não surgiu de repente. Trata-se de um problema histórico. Ao longo de sucessivas gestões, faltou uma agenda consistente de reestruturação do Estado. Governos passaram pelo comando administrativo preocupados em manter serviços funcionando e em atender demandas imediatas, mas sem avançar de forma decisiva em reformas estruturais capazes de reorganizar as finanças públicas e criar espaço para investimentos.
O resultado é um Estado que, entre governos e mudanças políticas, permanece preso a uma baixa capacidade de investimento. Essa limitação ajuda a explicar indicadores persistentes de atraso em áreas fundamentais, como educação e desenvolvimento humano. Houve avanços pontuais em setores específicos, como segurança pública e turismo, mas eles não foram suficientes para alterar a dinâmica geral da economia potiguar.
Em entrevista ao AGORA RN, o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Roberto Serquiz, resumiu bem esse dilema ao afirmar que a baixa capacidade de investimento próprio do Estado funciona como um freio ao desenvolvimento.
A solução passa, inevitavelmente, por um ajuste fiscal sério e consistente. Melhorar a capacidade de investimento exige reorganizar despesas, revisar prioridades e estabelecer uma política de responsabilidade fiscal capaz de produzir resultados duradouros no médio e longo prazo.
Enquanto isso não ocorre, situações emblemáticas continuam simbolizando a ineficiência do Estado. Um dos exemplos mais conhecidos é o Terminal Pesqueiro de Natal. A estrutura foi concluída ainda no governo Wilma de Faria e permanece sem funcionamento até hoje devido à falta de recursos para viabilizar um acesso adequado, estimado em cerca de R$ 10 milhões. Em um Estado com tantas necessidades econômicas, o episódio revela o grau de desperdício de tempo, energia e dinheiro público.
A visão desenvolvimentista do governo sainte é limitada. Ao assumir o comando do Rio Grande do Norte, o PT confirmou aquilo que ocorre em nível nacional: uma vocação ao estatismo e pouco incentivo e criação de melhorias para o ambiente de negócios.
O resultado é que a instalação de empresas de médio e grande porte ainda é rara no Estado. Uma rápida análise sobre as licenças ambientais emitidas pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) mostram que a maioria esmagadora dos novos empreendimentos registrados corresponde a pequenos comércios ou atividades de baixo impacto econômico. Padarias, pequenos serviços e indústrias artesanais dominam o cenário empresarial.
Muitas empresas locais acabam direcionando parte relevante de suas operações para outros mercados regionais, como João Pessoa (PB), onde encontram ambiente mais favorável ao crescimento.
A situação se torna ainda mais complexa quando se observa a distribuição dos recursos públicos. Levantamento da plataforma Justa mostra que o RN destina 9% de seu orçamento para o sistema de Justiça (Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública). É o segundo maior percentual do Nordeste, atrás apenas da Paraíba. Desse dinheiro, 61% vai para pagar pessoal — sendo parte significativa voltada a penduricalhos. Só o presidente do TJRN, Ibanez Monteiro, recebeu a bagatela de R$ 384,5 mil em janeiro deste ano.
Os demais poderes levam outra fatia significativa do orçamento, por meio dos duodécimos constitucionais. Em muitos casos, quando sobram recursos, eles não retornam ao Tesouro estadual. Em vez disso, surgem mecanismos administrativos para absorver integralmente as verbas a cada ao.
O Rio Grande do Norte enfrenta, portanto, um problema de gestão pública que exige coragem política para ser enfrentado. Reorganizar despesas, melhorar o ambiente de negócios, ampliar investimentos e construir uma estratégia de desenvolvimento consistente são tarefas que não podem mais ser adiadas.
Sem essa mudança de rumo, o Estado continuará preso a um ciclo de baixo crescimento, poucos investimentos e oportunidades limitadas. A reconstrução das bases financeiras e econômicas do Rio Grande do Norte não é apenas desejável. Tornou-se uma necessidade urgente.