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Editorial

Juventude desamparada causa perplexidade

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 28
Redação
28/03/2026 | 05:25

Não dá para ignorar o retrato que foi exposto nesta semana sobre a realidade da juventude, em especial a natalense e a potiguar. Os dados, os relatos e as experiências acumuladas apontam para uma realidade de desamparo que deveria causar perplexidade em qualquer sociedade minimamente atenta ao seu próprio futuro. Em Natal, uma parcela expressiva dos jovens cresce sem acesso a oportunidades consistentes, sem suporte adequado e, muitas vezes, sem perspectiva clara de inserção social e profissional.

São especialmente chocantes as queixas apresentadas pelos próprios jovens durante audiência pública realizada na Câmara Municipal nesta sexta-feira. A sessão foi convocada para tratar de políticas públicas para esse segmento.

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Juventude desamparada causa perplexidade - Foto: José Aldenir/Agora RN

Ali, o que se ouviu foram relatos diretos de uma geração que enfrenta obstáculos concretos e cotidianos. A dificuldade de conseguir o primeiro emprego aparece como uma das principais barreiras — agravada por uma exigência recorrente de experiência prévia que, na prática, impede a entrada no mercado. A pergunta que ecoa entre eles é: como adquirir experiência se não há oportunidade?

A isso se soma um conjunto de fragilidades estruturais. Jovens relatam abandono escolar motivado pela necessidade de trabalhar, dificuldades de mobilidade em áreas periféricas, ausência de saneamento básico, defasagem na qualidade da educação pública e um sistema de saúde mental incapaz de absorver a demanda crescente. Há casos de isolamento, retração social, sofrimento psicológico e até automutilação. Em paralelo, surgem relatos de violência, abuso e exploração precoce do trabalho. O conjunto forma um cenário que não pode ser tratado como pontual ou episódico.

A audiência pública vem em boa hora. Ela ocorre na sequência de dados que já vinham sinalizando um quadro preocupante. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, revelou que uma parcela significativa de jovens brasileiros — e também potiguares — manifesta sentimentos de desesperança. No Rio Grande do Norte, 1 em cada 10 estudantes afirma sentir que a vida não vale a pena ser vivida.

É a descrição de um ambiente social que não oferece sustentação emocional, oportunidades reais ou caminhos claros de desenvolvimento.

Quando se cruzam os dados da pesquisa com os relatos da audiência, o diagnóstico ganha consistência. Jovens não têm acesso a uma escola de qualidade que dialogue com o mercado de trabalho, não encontram portas abertas para o primeiro emprego, precisam abandonar os estudos para contribuir com a renda familiar e, nesse processo, perdem também a possibilidade de qualificação. O resultado é um ciclo que se retroalimenta: menos escolaridade, menos oportunidades, mais vulnerabilidade.

A cidade, nesse contexto, revela-se pouco acolhedora para essa parcela da população. Em muitas comunidades, a ausência de infraestrutura básica — transporte eficiente, segurança, espaços de convivência — agrava ainda mais o cenário. A falta de políticas públicas estruturadas e contínuas contribui para que a juventude permaneça à margem, sem protagonismo e sem prioridade nas decisões que moldam o futuro coletivo.

A audiência pública, presidida pelo vereador Pedro Henrique (PP), tem mérito ao expor esse quadro de forma organizada e dar voz a quem vivencia essa realidade. Mas seu valor maior estará na capacidade de produzir efeitos concretos. Não basta diagnosticar; é preciso reagir. O encontro foi revelador. Precisa agora ser sensibilizador.

O desafio que se coloca é amplo e não pode ser delegado a um único ator. Cabe ao poder público — municipal e estadual — formular e executar políticas integradas que tratem juventude como eixo fundamental. A classe política deve tratar o tema com a prioridade que ele merece. Cabe à sociedade civil organizada pressionar, acompanhar e propor. Ao setor empresarial, fica o desfaio de ampliar programas de aprendizagem, cumprir cotas legais e enxergar na juventude não um problema, mas um potencial.

Há também uma responsabilidade coletiva que vai além das instituições. Uma cidade não se sustenta sobre ilhas de prosperidade cercadas por bolsões de exclusão. Não é possível viver isolado em condomínios ou enclaves urbanos enquanto a maioria enfrenta carência de oportunidades. A formação de cidadãos — no sentido pleno, com acesso a educação, trabalho e dignidade — é um interesse comum, não um favor concedido.

Ignorar o que está posto significa aceitar que uma geração inteira seja privada de caminhos. E isso, além de injusto, é um risco social de grandes proporções. A juventude de Natal não pede privilégios. Pede condições mínimas para construir seu próprio futuro. É um pedido legítimo e urgente.