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Opinião

Gestão Álvaro exige exame mais detido

Relatórios da transição, restos a pagar, obras inacabadas e cobranças judiciais ampliam o escrutínio sobre a gestão do pré-candidato ao Governo do RN
Por O Correio de Hoje
10/06/2026 | 14:47

A passagem de Álvaro Dias (PL) pela Prefeitura de Natal voltou ao centro do debate político depois de novas declarações do ex-prefeito sobre dívidas, obras e decisões administrativas tomadas no fim de sua gestão. Pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte, Álvaro tem apresentado a administração municipal como uma das principais credenciais para disputar o Estado. O conjunto de documentos, cobranças judiciais, obras pendentes e questionamentos de órgãos de controle, porém, exige uma análise mais detida antes de qualquer conclusão sobre o legado deixado na capital.

O principal ponto de controvérsia está nas contas da Prefeitura. Relatório Técnico Conclusivo da transição, coordenado por Joanna Guerra (Republicanos), atual vice-prefeita de Natal, e encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado, registrou R$ 862,9 milhões em restos a pagar. O valor foi dividido em cerca de R$ 349,8 milhões em restos a pagar processados e R$ 513,1 milhões em não processados. O mesmo material confirmou a existência de 46 obras paralisadas ou inacabadas, com maior concentração em áreas como Educação e Serviços Urbanos.

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O relatório também trouxe elementos que ajudam a explicar a disputa sobre os números. Em 31 de dezembro de 2024, os restos a pagar somavam R$ 553,3 milhões antes das inscrições realizadas em 1º de janeiro de 2025. O demonstrativo de disponibilidade de caixa apontava R$ 1,424 bilhão em saldos bancários, mas R$ 1,160 bilhão estava vinculado ao NatalPrev, enquanto a Prefeitura propriamente dita tinha R$ 259,6 milhões. Ou seja, havia saldo bancário expressivo, mas grande parte dos recursos estava vinculada a finalidades específicas, o que limita a leitura de “caixa livre” para cobrir todo o passivo.

Ao longo de 2025, os Relatórios Resumidos de Execução Orçamentária mostraram que a gestão Paulinho Freire (União Brasil) pagou R$ 627,5 milhões e cancelou R$ 68,17 milhões do estoque bruto de restos a pagar que entrou no exercício. Ainda assim, Natal fechou o ano com R$ 429,57 milhões de saldo a pagar naquele estoque inicial. O dado mostra redução do passivo, mas não permite afirmar, sem uma planilha de conciliação item a item, quanto corresponde exatamente ao número de R$ 862,9 milhões divulgado a partir da transição.

Álvaro contesta a leitura de que tenha deixado a Prefeitura em situação calamitosa. Em entrevistas, afirmou que toda gestão deixa dívidas, disse que herdou obrigações de administrações anteriores e sustentou que saiu do cargo com dinheiro em caixa, convênios garantidos e recursos assegurados. Na 97 FM, declarou que “as dívidas existem” e que não são pagas “como uma conta de mercearia”. Também disse que a situação do Município “não era calamitosa” e que havia “um certo superávit” entre dívidas e dinheiro resguardado.

Os episódios envolvendo shows de fim de ano acrescentaram outro componente à discussão. A Justiça condenou o Município de Natal a pagar R$ 300 mil à empresa da cantora Taty Girl por apresentação realizada no Natal em Natal 2024, no fim da gestão Álvaro. O ex-prefeito reconheceu a dívida, mas afirmou que o show ocorreu no último dia de seu mandato e que caberia a Paulinho tratar do pagamento. Além disso, Beto Barbosa denunciou não ter recebido R$ 130 mil por show no réveillon de Ponta Negra, na virada de 2024 para 2025, também durante a gestão Álvaro. Segundo o cantor, ele pagou despesas de impostos, avião, traslado, músicos e bailarinas, mas não recebeu o cachê.

As obras também estão no centro da avaliação. O Hospital Municipal São Padre Pio foi inaugurado em 30 de dezembro de 2024, nos últimos dias da gestão Álvaro, mas ainda não funciona plenamente um ano e meio depois. Álvaro afirma que entregou a estrutura física e que Paulinho decidiu ampliar a unidade com UTIs e centros cirúrgicos. O fato, porém, permanece como ponto de cobrança: o equipamento foi inaugurado, apresentado como legado e ainda não atende a população.

A engorda de Ponta Negra é outro caso que exige detalhamento. Álvaro afirma que a obra salvou a praia, protegeu o Morro do Careca, preservou empregos e impediu o avanço do mar sobre o calçadão e empreendimentos privados. Ao mesmo tempo, a obra passou a ser alvo de questionamentos sobre condução do processo, drenagem, alagamentos, voçorocas, resultados esperados e estudos técnicos. Em entrevista à 96 FM, o ex-prefeito foi questionado sobre apontamentos feitos por Ministério Público Federal, TCE e TCU, e respondeu que os órgãos de controle não estariam aparelhados, mas “equivocados”. Disse ainda que a Justiça provará que não houve irresponsabilidade na execução.

A Prefeitura atual também teve de responder a novas dúvidas sobre a engorda. A secretária de Infraestrutura, Shirley Cavalcanti, afirmou que relatório de maio indicava preservação de 94% da areia da engorda, com perda ou movimentação de 6%, enquanto discussões públicas chegaram a citar um percentual de 40%. A divergência gerou cobrança por maior transparência da Funpec e por explicações técnicas sobre o comportamento da faixa de areia, especialmente perto do Morro do Careca.

Também entraram na pauta os pareceres técnicos do TCE sobre contas da gestão Álvaro. Publicações locais registraram recomendações de reprovação em exercícios analisados, com apontamentos sobre inconsistências contábeis, créditos suplementares, fontes de recursos, desequilíbrios orçamentários e falhas em prestações de contas. Parecer técnico não equivale a julgamento final, mas funciona como alerta institucional, especialmente quando os questionamentos se repetem ao longo de diferentes exercícios.

O quadro, portanto, não se resume a uma disputa verbal entre Álvaro e adversários. Há um conjunto de documentos, relatórios fiscais, obrigações herdadas, shows não pagos, obras pendentes e questionamentos de controle que precisa ser examinado com precisão. Álvaro tem direito de defender sua gestão, apontar obras, índices de aprovação, Plano Diretor, engorda, hospital, asfalto e investimentos privados. Mas, na condição de pré-candidato ao Governo, seu histórico administrativo também passa a ser objeto de escrutínio público.

A pergunta que fica não é apenas se Álvaro fez obras. Fez. A questão é como essas obras foram conduzidas, quanto custaram, o que ficou pendente, que dívidas foram deixadas, quais serviços efetivamente entraram em funcionamento e como os órgãos de controle avaliaram as contas. Para quem pretende governar o Estado, a análise do legado administrativo tende a ocupar espaço central no debate eleitoral.