Os ataques realizados pelo Irã contra instalações militares dos Estados Unidos nas duas semanas seguintes ao colapso do cessar-fogo ampliaram o debate sobre a real capacidade militar de Teerã e colocaram em xeque a avaliação do governo do presidente Donald Trump de que a ofensiva conduzida por Washington teria degradado de forma decisiva o potencial bélico iraniano.
Uma investigação visual publicada pelo The New York Times concluiu que mísseis e drones iranianos atingiram nove instalações utilizadas pelas Forças Armadas americanas em diferentes países do Oriente Médio, provocando danos a alojamentos, hangares de aeronaves, abrigos para drones, sistemas de radar, depósitos, centros de comunicação e áreas operacionais.

A análise foi construída a partir da combinação de imagens de satélite, vídeos verificados, fotografias e registros divulgados pelo próprio governo iraniano.
Base na Jordânia foi principal alvo
Segundo o levantamento, a Base Aérea Muwaffaq Salti, localizada em Azraq, na Jordânia, tornou-se o principal símbolo da nova fase do conflito. O complexo foi alvo de sucessivos ataques iranianos e sofreu o episódio mais grave registrado até agora, com a morte de três militares americanos e diversos feridos.
Autoridades militares ouvidas pelo jornal afirmaram que quase uma dúzia de soldados gravemente feridos nos bombardeios realizados na Jordânia e em outros países foi transferida para um hospital militar dos Estados Unidos, na Alemanha.
O Pentágono informou que a investigação sobre o ataque continua em andamento e evitou comentar as imagens analisadas pelo jornal por razões de segurança operacional.
A ofensiva representa uma mudança em relação aos primeiros meses da guerra. Na etapa inicial do conflito, o Irã concentrou seus ataques em infraestrutura militar, como radares, sistemas de defesa aérea e hangares.
Nas últimas semanas, entretanto, as ações passaram a atingir também estruturas destinadas ao alojamento e ao funcionamento cotidiano das tropas americanas.
Segundo o New York Times, imagens verificadas mostram projéteis explodindo nas proximidades de edifícios utilizados como dormitórios na Base Muwaffaq Salti. Fotografias e registros de vídeo indicam incêndios e destruição em diversas construções, enquanto imagens de satélite divulgadas posteriormente pelo governo iraniano apontam que pelo menos 20 estruturas foram danificadas ou completamente destruídas.
Militares americanos morreram durante ataques
Entre os militares mortos estavam o primeiro-tenente Tyler James Feehan, de 25 anos, a soldado Isabella Gonzales, de 19 anos, e o sargento Angel Rampersad, de 28 anos.
Os três integravam unidades responsáveis pela defesa antimísseis da base jordaniana, considerada um dos principais centros de operações da Força Aérea americana na região.
Antes do ataque fatal, imagens de satélite já haviam registrado a destruição de um hangar localizado no aeródromo, indicando que a instalação vinha sendo alvo recorrente da campanha iraniana.
Outras instalações americanas foram atingidas
A investigação identificou ainda danos em outras posições estratégicas dos Estados Unidos.
A Torre 22, posto militar situado na fronteira entre Jordânia e Síria, teve parte de sua estrutura destruída. Vídeos cuja autenticidade foi verificada mostram um dos edifícios reduzido a escombros após o impacto de um projétil.
Segundo autoridades americanas citadas pelo jornal, alguns militares sofreram ferimentos leves, receberam atendimento e retornaram ao serviço.
O local já havia sido alvo de um ataque em 2024, atribuído por Washington a uma milícia apoiada pelo Irã, episódio que matou três militares americanos.
Outras bases também sofreram danos. No Aeroporto Internacional Rei Hussein, onde militares americanos mantêm presença permanente, estruturas operacionais foram atingidas.
Na Base Aérea Ahmad al-Jaber, no Kuwait, imagens analisadas pelo New York Times indicam a destruição de um sistema de radar instalado havia apenas seis meses.
Já na Base Ali al-Salem, também em território kuwaitiano, os danos foram classificados como limitados, embora visíveis nas imagens de satélite.
No Bahrein, um armazém pertencente a uma instalação naval americana voltou a ser atingido após já ter sofrido ataques durante a primeira fase da guerra.
Em Irbil, no norte do Iraque, uma grande tenda militar utilizada pelos Estados Unidos foi destruída.
Capacidade iraniana chama atenção de especialistas
A capacidade iraniana de repetir ataques contra instalações que já haviam sido bombardeadas anteriormente chamou a atenção de analistas militares.
Das nove bases atingidas recentemente, quatro já haviam sofrido danos durante a primeira fase do conflito, indicando que Teerã mantém capacidade operacional para identificar, monitorar e voltar a atacar alvos previamente conhecidos.
Especialistas consultados pelo New York Times avaliam que essa repetição demonstra não apenas disponibilidade de armamentos, mas também melhora na precisão dos sistemas de guiagem empregados pelos mísseis iranianos.
Restrição de imagens dificulta avaliação
A obtenção de informações independentes sobre os danos tornou-se mais difícil após o governo americano solicitar que empresas privadas dos Estados Unidos deixassem de divulgar imagens de satélite de alta resolução das instalações militares na região, sob o argumento de preservar a segurança das tropas.
A prática antecede o atual governo, mas ganhou maior relevância durante a guerra.
Diante dessa limitação, o New York Times cruzou imagens divulgadas pelo Irã com registros da Agência Espacial Europeia (ESA), da Nasa e vídeos gravados dentro das próprias bases militares para reconstruir a extensão dos danos.