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Informe do Correio

O Senado em família e a nova face da velha política potiguar

Confira os destaques da coluna Informe do Correio, publicada em O CORREIO DE HOJE nesta sexta-feira 24
Por O Correio de Hoje
24/07/2026 | 17:41

Duas escolhas anunciadas para as eleições deste ano ajudam a compreender o estágio atual da política potiguar. Valério Marinho, pai do senador Rogério Marinho, será o primeiro suplente de Coronel Hélio. Anne Valentim, irmã do senador Styvenson Valentim, deverá ocupar a primeira suplência na chapa do irmão.

Não se trata de detalhe burocrático. O eleitor que escolhe um senador elege, no mesmo voto, seus dois suplentes. O primeiro pode assumir o mandato se o titular se licenciar por mais de 120 dias, ocupar outro cargo, renunciar, morrer ou perder o mandato. Passa, então, a exercer todos os poderes de um senador, embora nunca tenha recebido um voto individual.

Informe do Correio

Valério Marinho possui trajetória própria. Foi presidente da OAB-RN, participou da criação da Defensoria Pública estadual e já integrou, como suplente, a chapa de José Agripino. Questionar sua indicação não significa negar suas qualificações. Significa perguntar por que, entre tantos nomes disponíveis, a vaga capaz de conduzir alguém ao Senado voltou justamente para dentro da família do principal líder do PL no Estado.

Essa escolha também oferece uma resposta possível para a insistência de Rogério Marinho na candidatura de Coronel Hélio. O coronel foi apresentado como o nome da coerência e da independência, alguém que, nas palavras de Rogério, não teria “rabo preso”. Mas a presença do pai do dirigente partidário na primeira suplência revela uma chapa cercada por vínculos de confiança pessoal e controle político. Hélio pode ser o candidato; o projeto, porém, permanece firmemente ancorado na família Marinho.

No caso de Styvenson, a contradição é ainda mais eloquente. Ele próprio reconheceu que antes considerava nociva a presença de parentes na política, mas agora já não vê o problema com a mesma gravidade. Justificou a irmã pelo critério da confiança.

É uma explicação sincera — e precisamente por isso expõe uma mudança de postura.

Styvenson construiu sua identidade pública sobre a disciplina, a fiscalização e a rejeição aos hábitos da política tradicional. Agora adota uma prática comum no cenário político brasileiro: indicar um familiar para uma vaga que pode assumir o mandato. Não há notícia de ilegalidade. Há, porém, um debate político sobre coerência entre discurso e prática.

A confiança pessoal pode ser indispensável numa família. Na República, entretanto, o critério deveria ser a confiança pública. Um mandato não é patrimônio que o titular guarda para entregar a alguém de casa quando precisar sair.

As duas chapas mostram como a chamada nova política enfrenta antigos dilemas. Rogério fortalece seu projeto colocando o pai na linha sucessória. Styvenson, que chegou como símbolo de ruptura, prepara a própria irmã para substituí-lo. Divergem no estilo, mas convergem no método.

No fim, a política potiguar continua oferecendo ao eleitor candidatos diferentes para uma prática conhecida: o poder muda de mãos sem necessariamente se afastar dos vínculos familiares.