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Opinião

Direita tem de romper com os Bolsonaros

Artigo analisa recuo do senador nas pesquisas, dificuldades para ampliar apoio e defende que a oposição reavalie sua estratégia na disputa presidencial
Por O Correio de Hoje
20/07/2026 | 18:19

A menos de cem dias da eleição presidencial, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atravessa seu momento mais difícil. A pesquisa mais recente da Genial/Quest registra o recuo de Flávio e o avanço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu principal adversário. Não se trata de um quadro irreversível, mas mudar duas tendências tão claras em prazo tão curto exigirá muito mais do que a campanha do senador mostrou até agora.

A disputa, evidentemente, não está encerrada. Lula, porém, ocupa a Presidência, conserva uma base eleitoral sólida, desfruta da exposição permanente proporcionada pelo cargo e tem a máquina pública operando a pleno vapor em favor de sua reeleição. São vantagens relevantes, capazes de preservar ou ampliar a distância indicada pelas pesquisas.

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Esse quadro impõe à oposição uma discussão que já deveria ter começado. Caso sua prioridade seja retirar Lula do poder e impedir outro mandato petista, é preciso perguntar sem rodeios se Flávio Bolsonaro reúne as condições necessárias para cumprir essa tarefa. A resposta, conhecida desde o lançamento de sua candidatura, é negativa.

Enquanto aparecia competitivo, os aliados preferiram relativizar ou simplesmente ignorar suas muitas fragilidades. As rachadinhas, as relações com milicianos e a proximidade calorosa com o banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do maior escândalo financeiro da história brasileira, não pareciam incomodar os cabos eleitorais do senador. Apostava-se que o sobrenome Bolsonaro bastaria para atravessar todos esses obstáculos, garantir uma vaga no segundo turno e derrotar Lula.

A aparente perda de força registrada agora pelas pesquisas expõe aquilo que o entusiasmo dos correligionários escondia. Flávio não consegue ampliar sua presença para além do eleitorado bolsonarista mais radical. Pior ainda, tampouco demonstra capacidade de organizar e manter unido o próprio campo político que deveria sustentar sua campanha.

As notícias sobre a insatisfação dos aliados se acumulam. Para alguns, o senador adota bolsonarismo demais. Para outros, de menos. O descontrole chegou ao ponto de Jair Bolsonaro determinar a divulgação de uma carta para reiterar publicamente que Flávio continua sendo seu candidato. No ambiente familiar, a situação também se deteriorou. Michelle Bolsonaro transformou-se numa adversária poderosa do enteado e passou a sabotá-lo, por razões desconhecidas, levando as disputas internas do clã para uma espécie de reality show exibido diante do País. Tudo isso ocorre ainda em julho.

O problema talvez seja secundário para Jair Bolsonaro. Ao impor o filho como candidato, o ex-presidente preserva o domínio familiar sobre o patrimônio eleitoral do bolsonarismo e bloqueia a ascensão de outro nome da direita. Mesmo uma derrota de Flávio manteria o espólio sob controle do clã. Já a vitória de um candidato fora da família poderia reduzir os Bolsonaros à política miúda de onde jamais deveriam ter saído.

A candidatura do senador, portanto, passa a atender cada vez mais aos interesses pessoais do pai, e cada vez menos ao objetivo declarado de vencer Lula. Ainda há tempo até a votação, e uma parcela do eleitorado costuma decidir apenas nas vésperas ou no próprio dia da eleição. Mesmo assim, os levantamentos já sugerem que Flávio deixou de ser o único nome da direita com capacidade de enfrentar o petista no segundo turno.

Esse era seu principal argumento. Como suas qualidades pessoais para a Presidência são reconhecidamente inexistentes, restava a promessa de que somente ele poderia derrotar Lula. Quando essa vantagem se desfaz, desaparece também a justificativa política de sua candidatura. A direita não precisa aceitar essa fidelidade ao sobrenome como se fosse condição obrigatória para representar milhões de eleitores contrários ao petismo.

Abre-se, assim, uma oportunidade para a oposição romper com a dependência do clã Bolsonaro e construir, antes que o tempo se esgote, uma alternativa que reúna duas condições consideradas indispensáveis: capacidade de vencer Lula e de governar com um projeto de mudança. O Brasil necessita sair do cenário de baixa produtividade, investimento reduzido, polarização política e da submissão do interesse público às conveniências privadas.