A possibilidade de o campo progressista chegar às eleições de 2026 com várias candidaturas competitivas ao Senado acendeu um sinal de alerta dentro do PT do Rio Grande do Norte. A preocupação foi reconhecida publicamente pela presidente estadual da legenda e pré-candidata ao cargo, Samanda Alves, ao analisar um cenário que reúne, além dela, a senadora Zenaide Maia (PSD) e o ex-deputado federal Rafael Motta (PDT), além do ex-deputado Sandro Pimentel (Psol).
Como serão eleitos dois senadores, a existência de mais de uma candidatura de esquerda não representa, necessariamente, um problema. Ao contrário, pode ampliar as alternativas oferecidas ao eleitor e assegurar votos para diferentes segmentos do mesmo campo. O risco identificado pelo PT está na dispersão excessiva, capaz de fragmentar a votação progressista e abrir caminho para que a direita conquiste as duas cadeiras em disputa.

Samanda deixou claro que essa hipótese será considerada na definição da estratégia eleitoral da legenda. “A gente não pode correr o risco de entregar dois senadores da direita nessas eleições”, afirmou em entrevista ao podcast especial Eleições 2026, da TV Agora RN, nesta quinta-feira 23. A declaração revela que, embora a chapa governista esteja encaminhada para apresentar Samanda e Rafael Motta ao Senado, a composição ainda provoca questionamentos internos e não pode ser tratada apenas como uma formalidade partidária.
A memória de 2022 ajuda a explicar a cautela. Naquela eleição, o campo político que hoje se articula em torno da reeleição do presidente Lula chegou dividido à disputa pela única vaga disponível para o Senado. O ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves, então no PDT, tinha o apoio formal do PT e da governadora Fátima Bezerra. Rafael Motta, à época no PSB, manteve uma candidatura própria e também buscou votos entre eleitores de centro-esquerda.
A divisão favoreceu Rogério Marinho, que se elegeu mesmo sem alcançar a maioria absoluta dos votos. Carlos Eduardo terminou em segundo lugar, enquanto Rafael reuniu uma parcela expressiva da votação. Somados, os votos dos dois candidatos ligados ao campo progressista superariam o resultado do vencedor.
Ainda assim, o episódio se consolidou dentro do PT como exemplo dos efeitos que a fragmentação pode produzir. Samanda retomou diretamente essa experiência ao avaliar o cenário de 2026. “Na última eleição aqui, nós deixamos eleger um senador que o nosso campo político não apoiava e, com a divisão dos votos desse campo, acabou sendo eleito um senador que hoje figura nacionalmente como Rogério Marinho, que atenta contra a pauta dos trabalhadores”, declarou.
A eleição atual possui uma diferença importante: desta vez, cada eleitor poderá votar em dois candidatos ao Senado. Isso permite que partidos aliados apresentem nomes diferentes e, ao mesmo tempo, orientem o voto conjunto. Na teoria, Samanda e Rafael poderiam compartilhar o mesmo eleitorado sem uma disputa excludente. Na prática, entretanto, a presença de Zenaide Maia e de uma candidatura do Psol torna mais complexa a distribuição dos votos do campo que apoia Lula, e ainda mais num cenário em que um nome de direita — o senador Styvenson Valentim (Podemos) — é favorito para abocanhar uma das vagas, podendo casar votos com o colega de chapa Coronel Hélio (PL).
A inquietação interna não se resume à quantidade de candidaturas. Também passa pela identidade política da chapa e pela resistência de setores petistas ao nome de Rafael Motta. Uma corrente do PT, a Articulação de Esquerda, defendeu que a segunda vaga da aliança seja oferecida ao Psol, reproduzindo no Rio Grande do Norte a composição nacional de apoio ao presidente Lula. O partido, porém, já anunciou a intenção de manter candidaturas próprias ao Governo e ao Senado.
Rafael foi indicado pelo PDT para ocupar a segunda vaga da chapa governista, inicialmente reservada ao ex-senador Jean Paul Prates. Sua presença, contudo, ainda exige um trabalho de aproximação com parte da militância petista. Pesam nesse debate o voto do então deputado federal a favor do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, e a decisão de concorrer ao Senado em 2022 mesmo diante da candidatura de Carlos Eduardo apoiada pelo PT.
Samanda não afirmou que esses episódios estejam superados. Em vez disso, transferiu ao próprio Rafael a responsabilidade de apresentar explicações e construir uma relação de confiança com as bases petistas. “Cabe ao pré-candidato ao Senado fazer um diálogo de aproximação. É ele que tem que falar sobre os atos dele, é ele que tem que falar sobre a conduta que ele teve até agora. A militância está antenada, está atenta, está à disposição para ouvir”, disse.
A definição deverá passar pelo encontro de tática eleitoral do PT, marcado para esta sexta-feira 24, véspera da convenção que homologará as candidaturas da federação formada por PT, PV e PCdoB. A reunião do diretório estadual discutirá não apenas a situação de Rafael, mas as prioridades da campanha e a estratégia para evitar que a multiplicação de candidaturas progressistas termine beneficiando adversários.
Como presidente estadual e diretamente interessada na composição, Samanda evitou apresentar uma solução individual. “Não existe o olhar de Samanda, existe o olhar do meu grupo político, porque a gente tem grupo, a gente tem partido”, declarou. Segundo ela, a posição será construída internamente e seguida de maneira unificada depois da convenção.