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Coluna

Cultura censurada

Confira a coluna de Erick Pereira deste sábado 20
Erick Pereira
20/04/2024 | 08:31

Poucos sabem que o dia 18 consta no nosso calendário como o Dia Nacional do Livro Infantil e, para homenagear o “pai” da nossa literatura infantil, o Dia de Monteiro Lobato. Anos atrás, o Conselho Nacional de Educação recomendou ao MEC a exclusão do livro “Caçadas de Pedrinho” (1933) das bibliotecas escolas ou, na hipótese de mantê-lo, a inserção de uma nota explicativa sobre o contexto e o ano em que foi escrito. A pedagogia antirracista expôs as ideias eugenistas e racistas que abundam na correspondência e obra de Lobato.

Na época, em defesa de Lobato, Ziraldo concebeu uma camiseta para um bloco carnavalesco, na qual se destacava o desenho de um Lobato vestido de terno e gravata abraçado a uma mulata de biquíni sumário. Para piorar, o mais incensado e vendável dos nossos escritores infantis revelou: “Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista”.

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Cultura censurada - Foto: Carla Belke

Hoje, o livro “O menino marrom” (1986) tem sido associado ao reforço de uma série de estereótipos que depreciam o negro. A exposição da grande mentira do mito da “democracia racial” mostra que não há versão aceitável de racismo: cordial, inofensiva, ou mesmo sem ódio. E que o questionamento, o debate e uma eventual revisão ou contextualização da obra se faz imprescindível, de outra forma não se conseguirá reconhecer a dor do racismo.

Tal fenômeno, que em muito difere da censura, não é exclusividade nossa. Nos EUA, processo semelhante ocorreu com Mark Twain. “As Aventuras de Huckleberry Finn”, uma das mais importantes obras da literatura norte-americana, sofreu revisão por editoras que suprimiram termos considerados pejorativos e racistas.

Num país que padece de racismo, bibliofobia e ainda abriga um contingente enorme de analfabetos funcionais, poucos se aventuram a ler literatura séria, quanto mais escrever. Assim, não surpreende que livros sejam alvos de censura e ataques, a exemplo do que recentemente ocorreu com “O Avesso da Pele”, de Jefferson Tenório, e “Outono da Carne Estranha”, de Airton de Souza. Coincidentemente, ambos os escritores são negros.

O livro de Tenório, vencedor do Jabuti de 2021 e outros prêmios, apesar de ser uma esmerada história sobre racismo, foi perseguido por conservadores do Rio Grande do Sul e recolhido de escolas de Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná por apresentar “linguagem imprópria”. O livro de Souza, que trata da relação homossexual entre dois garimpeiros, passou a ter sua divulgação cancelada pelo pró- prio Sesc que o premiou, após leitura pública de um trecho feita pelo autor na Flip.

Obviamente, a censura obtusa em muito estimulou a divulgação e a comercialização das obras. O livro de Tenório foi até “reabilitado” quando, dias atrás, passou a ser leitura obrigatória no vestibular da UFRGS. A censura, apesar dos seus efeitos nocivos à liberdade, quase sempre atrai o interesse pelo que proíbe e, também, nos faz refletir: quanta hipocrisia, quanta chatice! Ainda mais quando todos sabemos que adolescentes têm franco acesso a letras de música e textos de internet recheados de violência, sexo, pornografia, preconceitos negativos. Não se põe em dúvida que a adaptação à realidade requer contato com questões “sensíveis” como o racismo, a violência policial, a precariedade da educação, a homossexualidade, a pobreza, temas abordados pelas obras.

A literatura não é asséptica, imune às ideias e costumes que se deslocam no tempo, às contradições da natureza humana, aos conflitos que desafiam a hegemonia dos cânones atuais. Antes, é bálsamo para a nossa impermanência e perplexidade diante da insensatez humana, nossas dúvidas e intolerâncias. É melhor que o avatar, pois alimenta nossos sonhos e nos permite “viver” outras vidas. É essencial, porque “cria uma fraternidade dentro da diversidade e eclipsa as fronteiras erguidas entre homens e mulheres pela ignorância, pelas ideologias, pelas religiões, pelos idiomas e pela estupidez” (Vargas Llosa).

Os sentimentos são moldados pela forma como nos habituamos a interpretar o mundo na superfície, e é compreensível que as primeiras impressões apelem aos medos, preconceitos e intolerâncias. Mas, sobretudo em época de retrocesso a posturas muito conservadoras, ficar apenas na superfície é se arriscar a dividir e demonizar o outro, a dis- criminar o valor das vidas e a naturalizar a desigualdade na distribuição do compromisso social. Avanços civilizatórios requerem políticas públicas igualitárias que enfatizem noções de cultura; a não redução das pessoas às identidades racial, religiosa ou de gênero; a reconciliação de diferenças. Por menos censura e mais bibliotecas e escritores!