A lenda mais antiga sobre as sereias foi retratada na “Odisseia”, poema épico escrito por Homero. Temidas por seu canto, foram superadas por Odisseu amarrado ao mastro de seu navio e sua tripulação com ouvidos protegidos por cera. Em outra versão da lenda das sereias, a “Argonáutica Órfica”, Orfeu derrotou os seres mitológicos marinhos com o som da sua lira e suas habilidades musicais quase divinas. Resultados semelhantes, posturas distintas. Em uma, a escolha pela passividade forçada que ignora os sons inebriantes em favor da sobrevivência. Noutra, a escolha por agir, protagonizar um papel, confrontar e avançar rumo ao destino desejado.
Não significa necessariamente que Odisseu estivesse errado. Ele lutava por sua vida e de seus companheiros de navio. Mas e seu disser que na política não temos feito muito diferente. Um estudo conduzido por pesquisadores do departamento de psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que a aversão a um político de um polo distinto tem feito perdermos atenção e o interesse na mensagem que ele passa, “Odisseus” modernos amarrados ao mastro da própria existência.
A conclusão, agora do articulista, é de que a conduta aliena o eleitor de parte do processo eleitoral democrático e desumaniza aquele considerado adversário. Esse fenômeno acaba por fechar o eleitor em grupos que falam apenas para si e torna-o mais suscetível a acreditar em notícias falsas ou ser alvo de desinformação. Nesta eleições, inclusive, pela primeira vez, há proibição do uso de deepfakes – técnica que usa inteligência artificial (IA), fotos e vídeos para criar adulterações realistas – e obrigatoriedade de sinalizar o uso de inteligência artificial nos conteúdos divulgados por candidatos.
O alerta chega em razão do início da propaganda eleitoral na internet, na imprensa e principalmente na rua com postulantes a prefeito (a) e vereadores (as) que passarão a apresentar a visão de gestão e de futuro para a cidade e seus cidadãos. A decisão a ser tomada no dia 6 de outubro, quando os votos serão depositados nas urnas, não vale apenas para o dia, mas por bem mais de quatro anos.
Há um ditado africano que diz que “não herdamos o mundo de nossos ancestrais, mas pegamos emprestado dos nossos filhos.” Ao assumirem seus respectivos cargos, as decisões, os debates, a representatividade que estará presente no Executivo e no Legislativo ditará os rumos para o futuro. Se uma cidade abraçará o atraso em passos para trás ou avançará com um projeto voltados às pessoas que constroem a sociedade. Por isso, cautela com o canto da sereia que presenteia, que promete concreto e invencionices, mas ouça. Saiba quem são, cada um deles, para no dia que decide o futuro, ressoar a música que você deseja que embale o dia seguinte e deixar para trás o mito travestido de belo.
Bruno Araújo é jornalista, escritor e especialista em Comunicação Pública
