Quase dois séculos atrás, em 7 de abril, D. Pedro I abdicou do trono em razão de um movimento popular gerado pelo assassinato político de João Batista Líbero Badaró, médico e jornalista. Essa data, posteriormente instituída como o “Dia do Jornalista”, também celebra a fundação da ABI.
No entanto, o passar do tempo não resultou em grandes avanços. Hoje, é fácil perceber as dificuldades enfrentadas pelos jornalistas, que precisam lidar com as constantes e turbulentas mudanças da era digital. Enormes e rápidas correntes de informações gratuitas inundam o cenário, ao mesmo tempo em que arrastam consigo ruídos e detritos de informações difíceis de filtrar. Fornecer uma informação verdadeiramente livre tornou-se não apenas árduo, mas quase impossível dentro do atual sistema que regula o mercado dos meios de comunicação.

Massimo Cacciari expressa um pessimismo significativo ao opinar que o sistema atual, que molda a opinião pública e a sociedade civil, está organicamente estruturado para tornar impossível a construção de um discurso crítico e de um diálogo significativo. As redes sociais, impulsionadas por conjuntos de dados, priorizam demandas, frustrações e a disseminação de afetos geralmente negativos ou superficiais. Isso acaba profanando a informação tradicional, livre, crítica e racional.
Nesse contexto, compreende-se por que jornais dotados de espírito, legado e tradição, quando não extintos, sobrevivem com grandes sacrifícios e malabarismos financeiros, ou vendem sua integridade aos empresários da era digital ou do mercado financeiro. O debate, as reportagens e os ensaios elaborados estão sendo substituídos pela veiculação de matérias patrocinadas por anunciantes e pela disseminação de informações e opiniões pautadas pelo consenso e pelo sensacionalismo, sem mencionar as famigeradas fake news agora impulsionadas pela inteligência artificial.
É uma tarefa árdua competir com o lucro fácil da internet, com a demanda por leituras e informações de fácil assimilação e de acesso livre. Agências de publicidade, anunciantes, plataformas de mídia, blogueiros e uma miríade de “influenciadores” têm influenciado significativamente os rumos da sociedade civil, suas tendências e perspectivas. Isso prejudica os empregos em ambientes criativos, o reconhecimento pelo trabalho aprofundado e analítico, bem como a liberdade e a independência dos jornalistas.
Em meio a tantas incertezas e frustrações, países europeus têm tomado medidas contra gigantes digitais como o Google – recentemente, a França impôs uma multa de 250 milhões de euros por reutilização de conteúdo multimídia online. Embora seja uma iniciativa louvável em prol da sobrevivência do jornalismo genuíno, ainda é insuficiente para reverter a hegemonia das redes sociais.
Parte da culpa recai sobre todos nós, pela conivência com o superficial, pela indolência diante da complexidade da realidade, pelo julgamento sem análise, pela demonização do outro e pela propagação de discórdias, intrigas e calúnias. A famosa observação de Umberto Eco tornou-se uma triste realidade: “Quando a internet permite que todos falem, permite que um grande número de imbecis fale”. Muitos distorcem e instrumentalizam sua voz para seus próprios interesses e ressentimentos, recebendo aprovação de outros indivíduos igualmente imbuídos nesse ciclo de superficialidade.
Em parte, somos todos culpados, pois nos tornamos escravos emocionais e cognitivos desse sistema que carece de qualquer intenção de honestidade intelectual para informar e educar, para exercer uma crítica construtiva da ordem estabelecida e dos governantes. Contrariando o pessimismo, Cacciari sugere que a política e o jornalismo deveriam enfrentar esse problema, centrando-se na liberdade recíproca, ao invés de se perderem em confrontos infrutíferos. Se o poder político tem uma inclinação notável para manipular os meios de comunicação, ele também corre o risco de abdicar do debate e da informação crítica – e, consequentemente, da ação política duradoura – ao se submeter ao domínio das redes sociais, pesquisas e consensos efêmeros.