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Saúde

Plástico DEHP na gravidez é associado a alterações em genes de bebês e a traços de autismo e TDAH

Estudo australiano com 847 participantes, publicado na revista Med, não prova que a substância cause as condições, mas aponta possível caminho biológico
Agora RN
15/09/2026 | 10:36

O DEHP, substância usada para deixar alguns plásticos mais flexíveis, foi associado a mudanças na atividade dos genes de bebês logo ao nascer e a uma presença maior, na infância, de características ligadas ao autismo, ou transtorno do espectro autista (TEA), e também ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). A ligação apareceu entre crianças cujas mães tiveram exposição ao DEHP na gestação, mas os autores do estudo destacam que os dados não permitem dizer que o composto cause essas condições.

A pesquisa, feita por cientistas australianos, saiu na sexta-feira 11 na revista científica Med, da editora Cell Press. DEHP é a sigla de ftalato de di(2-etil-hexila), um aditivo colocado principalmente no PVC para dar mais flexibilidade ao material.

Gestante de camisa branca e calça jeans com as mãos sobre a barriga
Imagem ilustrativa: estudo australiano analisou a exposição de gestantes ao DEHP e alterações epigenéticas nos bebês — Pexels

Por causa dessa função, o composto pode aparecer em vários produtos, conforme a composição e a forma de fabricação. Estão nessa lista pisos e revestimentos de vinil, mangueiras e tubos flexíveis, algumas embalagens e materiais que entram em contato com alimentos, roupas e revestimentos à prova d’água e itens médicos, como certos tubos e bolsas feitos de PVC flexível.

Para investigar os efeitos da exposição na gestação, os pesquisadores usaram dados do Barwon Infant Study, estudo australiano que acompanha mães e filhos desde a gravidez. Do total de participantes, 847 tinham informações suficientes para estimar a exposição ao DEHP antes do nascimento.

Essa estimativa foi feita pela presença de metabólitos da substância, resíduos que o corpo produz ao processá-la, na urina das mães na 36ª semana de gestação. Depois do parto, a equipe analisou amostras de sangue do cordão umbilical e identificou um conjunto de genes com alterações na metilação do DNA ligadas à exposição ao composto.

A metilação é um mecanismo que regula a atividade dos genes sem modificar a sequência do DNA. Parte dos genes encontrados na pesquisa já tinha sido associada anteriormente ao desenvolvimento do cérebro, ao autismo e ao TDAH.

As crianças continuaram sendo acompanhadas nos primeiros anos de vida. Aos dois e aos quatro anos, passaram por avaliações feitas com questionários sobre comportamento. As análises encontraram ligação entre três fatores: a exposição ao DEHP na gestação, as alterações epigenéticas, mudanças na forma como os genes funcionam, vistas ao nascer e características associadas, mais tarde, ao autismo e ao TDAH.

Os principais resultados foram checados ainda em outros conjuntos de dados, independentes do primeiro. Nessa etapa, foram usadas amostras de sangue e de tecido cerebral, que confirmaram parte das associações encontradas no início.

Os achados, no entanto, não provam que o DEHP provoque autismo ou TDAH. O formato do estudo permite apontar associações entre os fatores observados, mas não mostrar que a exposição à substância na gravidez seja a responsável pelo aparecimento dessas condições.

Autismo e TDAH são condições complexas, influenciadas por vários fatores genéticos e ambientais. Por isso, uma criança que foi exposta ao DEHP durante a gestação não vai, obrigatoriamente, desenvolver nenhuma delas.

A contribuição do trabalho é apontar um possível caminho biológico entre a exposição ao composto antes do nascimento e o desenvolvimento neurológico. As alterações epigenéticas identificadas já no sangue do cordão umbilical dão uma pista de como fatores do ambiente durante a gravidez podem se relacionar com a atividade dos genes. Segundo os autores, serão necessárias novas pesquisas para confirmar essa relação e entender até onde ela vai.