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Tabagismo

Fumo passivo atinge 2,7 bilhões de pessoas e está ligado a 1,7 milhão de mortes em 2023, aponta estudo

Pesquisa na The Lancet Public Health mostra que 767 milhões de crianças respiraram fumaça de cigarro alheio em 2023; não há nível seguro de exposição
Agora RN
14/09/2026 | 18:52

Ninguém precisa acender um cigarro para sofrer os efeitos dele: o fumo passivo basta. Em 2023, mais de 2,7 bilhões de pessoas respiraram a fumaça do tabaco de outros fumantes, e essa exposição pesou em quase 1,7 milhão de mortes prematuras pelo mundo — aquelas que chegam antes do tempo esperado de vida. Crianças de até 14 anos somavam 767 milhões dos atingidos.

Os números saíram de um estudo da revista científica The Lancet Public Health, publicação dedicada à saúde pública, que mediu o peso da inalação involuntária da fumaça de quem fuma entre 1990 e 2023, em 204 países e territórios.

Close do rosto de um homem de barba grisalha por fazer, segurando um cigarro aceso junto à boca
Fumante com cigarro aceso; estudo estima que 767 milhões de crianças de até 14 anos foram expostas à fumaça do tabaco em 2023 — José Aldenir/O Correio de Hoje

Pelas contas dos pesquisadores, 1,66 milhão de mortes prematuras em 2023 tiveram relação com a exposição involuntária à fumaça. O problema também aparece associado ao adoecimento precoce e a incapacidades.

A principal causa da carga de doenças — medida que soma as mortes e os anos vividos com problemas de saúde — ligada ao fumo passivo foi a cardiopatia isquêmica, doença do coração provocada pela chegada insuficiente de oxigênio ao músculo cardíaco.

Esses números são parte de um estrago ainda maior. Em 2023, as doenças ligadas ao tabaco mataram por volta de 8 milhões de pessoas, incluindo não fumantes que respiraram a fumaça produzida por outros.

Segundo o estudo, não existe dose segura de fumo passivo. Os autores montaram as estimativas a partir de pesquisas populacionais e de artigos reunidos no PubMed, a base de dados de publicações científicas mantida pelos Institutos Nacionais de Saúde americanos.

As crianças estão entre os grupos mais expostos. Do total estimado de fumantes passivos em 2023, 767 milhões eram crianças de 0 a 14 anos, e só naquele ano elas tiveram por volta de 5,2 milhões de infecções respiratórias associadas à fumaça. É essa vulnerabilidade das crianças que leva os pesquisadores a recomendar mais medidas para reduzir a exposição dentro e fora de casa.

Quem fica perto de uma pessoa fumando respira uma mistura de duas fontes. Uma é a fumaça que o fumante solta ao expirar. A outra vem direto da ponta acesa do cigarro, ou de outro produto de tabaco, enquanto ele queima, e é chamada de fumaça lateral.

É a fumaça lateral que predomina no ar respirado pelos não fumantes por perto, sem passar por filtro nenhum. De acordo com os autores, ela pode carregar, proporcionalmente, concentrações maiores de certos compostos tóxicos e cancerígenos, capazes de provocar câncer, do que a fumaça que o próprio fumante aspira.

O levantamento mostra também um contraste entre o que se conquistou no combate ao cigarro e o tamanho que a exposição involuntária ainda tem.

A prevalência global do tabagismo, a proporção de fumantes na população, caiu bastante desde 1990. Mesmo assim, o total de pessoas expostas à fumaça alheia pouco mudou ao longo de todo o período.

Parte da explicação está no crescimento da população mundial. O estudo identificou ainda mais exposição em partes do Oriente Médio e da África, o que anulou parte da queda registrada em outros lugares.

As mulheres formam outro grupo atingido de forma desproporcional, sobretudo em regiões onde poucas delas fumam. Mesmo sem consumir tabaco, elas continuam expostas dentro de casa e em outros lugares onde há quem fume.

Mesmo com essa dimensão, observam os autores, a fumaça alheia continua pouco lembrada como um risco importante para a saúde das mulheres em particular.

A recomendação aos governos é que reforcem as políticas de controle do tabagismo nos espaços públicos e ampliem as medidas capazes de reduzir a exposição dentro das casas. O cuidado com o ambiente doméstico pesa justamente porque envolve crianças e mulheres que podem conviver todos os dias com fumantes.

Mais de três décadas de queda do tabagismo mostram que, proporcionalmente ao tamanho da população mundial, menos gente acende cigarro. O novo levantamento indica, porém, que a fumaça continua alcançando bilhões de pessoas que nunca optaram por fumar — e que inalar o cigarro dos outros segue associado a doenças e mortes em escala global.