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Obesidade

Gordofobia atrapalha o acesso ao tratamento da obesidade, que pode atingir 3 bilhões de adultos até 2030

Presidente da Associação Brasileira de Nutrologia diz que peso não é só questão de escolha e defende tratar o combate ao preconceito como saúde pública
Agora RN
11/09/2026 | 18:03

Se o ritmo atual se mantiver, cerca de 3 bilhões de adultos terão obesidade em 2030 — mais ou menos metade da população adulta do planeta. A projeção, do Atlas Mundial da Obesidade 2025, dá a dimensão de um problema que vai além do que a balança marca. Para milhões de pessoas, o excesso de peso chega junto com discriminação, dificuldade de acesso a tratamento e prejuízo à saúde mental.

Na quinta-feira 10, data em que se marca o Dia de Luta Contra a Gordofobia, especialistas chamaram a atenção para um preconceito que se manifesta no dia a dia, das relações em família ao mercado de trabalho. E defenderam que a obesidade seja entendida como uma doença crônica, complexa e com múltiplas causas.

Duas mulheres de corpos diferentes caminham abraçadas pela areia da praia, de costas para a câmera, diante do mar
Dia de Luta Contra a Gordofobia é celebrado em 10 de setembro para conscientizar a sociedade — Foto: Magnific

“Apesar dos avanços no conhecimento sobre a obesidade, o preconceito ainda interfere no acesso ao tratamento, nas relações sociais e até nas oportunidades profissionais. O paciente não pode ser definido apenas pelo seu peso. Ele precisa ser acolhido e tratado com respeito”, afirma o médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), fellow da The Obesity Society — título dado a membros de destaque da entidade — e palestrante do Congresso Brasileiro de Nutrologia 2026.

Segundo o especialista, uma das ideias que alimentam o preconceito é tratar o peso como fruto exclusivo das escolhas de cada um. Essa visão reduz uma condição de saúde complexa a uma questão de disciplina pessoal. “A obesidade não é resultado apenas de escolhas individuais. Ela envolve fatores biológicos, genéticos, metabólicos, ambientais, comportamentais e sociais. Quando a sociedade ignora essa complexidade, reforça estereótipos que geram sofrimento emocional, isolamento e atraso na busca por tratamento”, explica.

Nem sempre a gordofobia é escancarada. Ela pode vir disfarçada de conselho ou de elogio num comentário sobre o corpo, aparecer na falta de cadeiras e de estruturas adequadas em lugares públicos, na cobrança por um padrão estético ou em julgamentos que colam na pessoa com obesidade rótulos como preguiça, desleixo ou incompetência.

Sobre as mulheres, a pressão pode ser ainda maior, já que o preconceito ligado ao peso se soma a questões de gênero, de etnia e de sexualidade. Entre os adolescentes, o estigma pede atenção especial pelos efeitos que pode ter na autoestima e na saúde mental. A gordofobia pode contribuir para quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima e transtornos alimentares, sobretudo nessa faixa etária.

Para Ribas Filho, combater o preconceito passa por evitar comentários sobre o corpo alheio, rever estereótipos e parar de associar aparência a saúde, a competência ou a capacidade profissional.

O tratamento da obesidade, ele lembra, também não pode se resumir ao número da balança. Precisam entrar na conta a alimentação, a atividade física, o histórico clínico, a saúde física e a mental, a qualidade de vida e o contexto social. Frases que reduzem o emagrecimento a uma questão de força de vontade desconsideram a complexidade da doença, reforçam o estigma e aumentam a culpa que recai sobre o paciente.

Ribas Filho alerta, ainda, que o medo de ser julgado pode afastar as pessoas dos serviços de saúde justamente quando elas mais precisam de acompanhamento. Por isso, defende que a luta contra a gordofobia seja encarada como um problema de saúde pública, que exige acolhimento, respeito e acesso adequado a tratamento.

Entre as atitudes que ele recomenda estão reconhecer a obesidade como doença, enfrentar situações de discriminação, deixar de comentar o corpo dos outros e observar os efeitos emocionais do preconceito. Na visão do médico, acolher faz parte do cuidado tanto quanto a alimentação adequada, a atividade física e o acompanhamento médico.