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Saúde

Mortes por câncer ligadas ao álcool mais que dobram nos EUA em 33 anos, de 11.361 para 23.126 por ano

O risco já começa a subir em torno de uma dose diária; entre mulheres acima de 55 anos, o câncer de mama lidera as mortes atribuíveis à bebida
Agora RN
09/09/2026 | 20:49

Basta uma dose por dia. É a partir dessa quantidade — cerca de 355 ml de cerveja comum, ou 148 ml de vinho, ou 44 ml de um destilado a 40% — que os pesquisadores já enxergam risco maior de câncer. A medida é a americana, e o dado vem de um levantamento que acompanhou 33 anos de mortalidade nos Estados Unidos. O drinque de todo dia, tratado por décadas como parte inofensiva da rotina, está sendo reavaliado à medida que a pesquisa avança sobre seus efeitos.

O que esse levantamento mostra é que a bebida ganhou peso nas estatísticas de morte por câncer. Em 1990 eram 11.361 as mortes anuais por câncer que se atribuíam ao consumo de álcool. Em 2023, já eram 23.126 — mais do que o dobro, portanto. Entre quem já passou dos 20 anos, a fatia das mortes por câncer creditada à bebida também dobrou nesse intervalo.

Bebida servida em balcão de bar
— José Aldenir

Publicado na revista The Lancet Regional Health Americas, o estudo se apoia no GBD, o Estudo da Carga Global de Doenças. Trata-se de uma base que compila mortalidade, doença, incapacidade e centenas de fatores de risco, cobrindo mais de 200 países e territórios.

Dez tipos de tumor entraram na conta do estudo, e vale ver quem morre mais em cada um deles. O álcool apareceu associado a sete deles pelo nome do órgão: fígado, pâncreas, estômago, cólon, reto, próstata e mama. Somam-se a esses os que atacam as regiões da cabeça e do pescoço.

A conta pesa de maneira diferente conforme idade e sexo de quem se observa. Homens e pessoas acima dos 55 anos levaram a pior. Nesse recorte masculino mais velho, a taxa de mortalidade por câncer ligada à bebida cresceu quase 24% ao longo do período estudado.

Entre eles, é o fígado que responde pela ligação mais forte com o álcool, e vêm em seguida os tumores de esôfago e o colorretal. Já para as mulheres acima de 55, quem lidera as mortes atribuíveis à bebida é o câncer de mama, seguido do de fígado e do colorretal.

A surpresa, contudo, está entre os mais jovens: na faixa dos 20 aos 54 anos o quadro muda. Ali, o colorretal ultrapassa o de fígado nos dois sexos. Entre os homens dessa idade, ele se torna a primeira causa de morte por câncer que se pode atribuir à bebida; entre as mulheres, fica em segundo, porque a primeira posição pertence ao câncer de mama.

Outro achado desfaz uma ideia intuitiva. Não é quem bebe há mais tempo que corre perigo com menos. Conforme os autores do estudo, mulher de qualquer idade e homem abaixo dos 55 anos podem ver o próprio risco subir com um volume de bebida menor do que aquele necessário para produzir o mesmo efeito no homem mais velho.

Dos dez tumores analisados, os que menos cresceram em mortalidade ligada ao álcool foram próstata, pâncreas e estômago — cresceram, ainda assim, ao longo dos 33 anos. Cabeça e pescoço também exibiram relação de peso. Esse grupo abrange os cânceres de lábio, de cavidade oral, de faringe, de laringe e de esôfago — e parte desses casos tem a bebida na lista dos fatores de risco que dá para evitar.

Resta a pergunta sobre o que o álcool faz por dentro do organismo, e a resposta não cabe num mecanismo único. O organismo converte etanol em acetaldeído, uma substância com potencial carcinogênico que consegue danificar o DNA e ainda atrapalhar o conserto desse dano.

Beber também abre caminho para inflamação e para estresse oxidativo, mexe com hormônio e interfere na maneira como o corpo absorve nutriente. Na boca e na garganta há um efeito extra: as células ficam mais suscetíveis à ação de substâncias cancerígenas.

Nada disso equivale a dizer que quem bebe terá câncer. O que a literatura indica é que existe risco mesmo em quantidade pequena. E, como se trata de um fator que a própria pessoa consegue mudar, beber menos significa diminuir a exposição aos mecanismos que levam ao tumor.