A relação entre saúde mental, espiritualidade e busca por um sentido para a existência foi o eixo de uma ampla discussão no podcast Conexão Saúde, da TV Agora RN. Apresentado pelo jornalista Elias Luz, o programa reuniu o médico psiquiatra Francisco Rodrigues, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e a professora Rute Pinheiro, bióloga, mestre em psicobiologia, especialista em neurociências e pesquisadora da conscienciologia. A conversa partiu de uma questão que atravessa ciência, filosofia e religião: a experiência humana termina nos limites do corpo físico ou há fenômenos que ainda demandam investigação?
Rodrigues levou ao debate a experiência acumulada na psiquiatria e no ensino da relação entre medicina, saúde e espiritualidade. Segundo ele, a dimensão espiritual passou a ocupar espaço em sua atuação principalmente a partir do contato com pacientes que apresentavam sofrimento psíquico e dependência de álcool. O médico afirmou que psicofármacos — entre eles antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos — cumprem uma função clínica, mas defendeu que determinadas pessoas também procuram propósito, pertencimento e significado para lidar com o sofrimento.

Um dos exemplos citados foi o tratamento do alcoolismo. Rodrigues contou que, ao longo de sua trajetória, observou a dificuldade de pacientes que desejavam interromper o consumo, mas não conseguiam controlar a compulsão. Foi nesse contexto que passou a observar a experiência dos Alcoólicos Anônimos e seus 12 passos. Na avaliação do psiquiatra, a referência a um “poder superior” introduzia uma dimensão que a formação acadêmica tradicional nem sempre incorporava ao cuidado. Ele ressalta, porém, que utiliza medicamentos quando há indicação clínica e que a espiritualidade aparece, em sua abordagem, como uma dimensão adicional do indivíduo.
A discussão avançou para o campo da pesquisa da consciência. Rute Pinheiro relatou que o interesse pela conscienciologia antecedeu sua formação em psicobiologia e neurociências. Bióloga de formação, ela afirmou que procurava compreender experiências pessoais que não encontravam explicação satisfatória, em sua avaliação, pelas abordagens convencionais. Em 1994, conheceu a conscienciologia e passou a se dedicar ao estudo de fenômenos associados à experiência fora do corpo e a outras percepções classificadas pela área como extrafísicas.
Rute apresentou como um dos fundamentos dessa linha o chamado “princípio da descrença”: em vez de aceitar afirmações apenas pela autoridade de quem as apresenta, a proposta, segundo ela, é experimentar, investigar e confrontar percepções com a própria vivência. A professora diferencia essa abordagem de uma adesão religiosa e sustenta que a conscienciologia busca aplicar métodos de investigação ao estudo da consciência. Essas afirmações, no entanto, foram apresentadas no programa como concepções e experiências dos entrevistados e não equivalem, por si só, a consenso científico sobre a existência de dimensões espirituais.
Propósito de vida é ponto de encontro entre saúde e espiritualidade
No debate, um dos conceitos que aproximou as diferentes formações dos convidados foi o de propósito de vida. Rute argumentou que condições materiais favoráveis não necessariamente impedem quadros de sofrimento emocional e citou o sentido atribuído à própria existência como um elemento relevante para a percepção de qualidade de vida. “O que eu vim fazer aqui? Qual é a minha programação de vida? O que é que eu vim fazer nessa vida física?”, questionou durante o programa.
Sua pesquisa de mestrado também foi apresentada como resultado dessa tentativa de aproximar experiência subjetiva e investigação. Rute disse ter pesquisado o chamado “estado vibracional” em busca de correlatos neurofisiológicos. Segundo sua descrição, trata-se de uma técnica de mobilização de energia pelo corpo que, dentro da conscienciologia, é utilizada para ampliar a percepção e o domínio sobre estados considerados energéticos. A pesquisadora relatou experiências pessoais com a prática e defendeu que fenômenos dessa natureza sejam submetidos a estudo e observação, em vez de simplesmente aceitos ou rejeitados.
Rodrigues, por sua vez, associou propósito e espiritualidade à maneira como cada pessoa organiza valores e prioridades. Para o psiquiatra, o desenvolvimento material não deveria ser a única referência para medir progresso individual. Sua concepção é influenciada pelo cristianismo e pela ideia de continuidade da existência para além da morte biológica. Durante a entrevista, ele também relacionou essa perspectiva a princípios de solidariedade, dignidade humana e responsabilidade nas relações sociais.
A discussão chegou ainda ao cotidiano. Questionados por Elias Luz sobre como conciliar trabalho, família e problemas diários com a busca por uma “consciência expandida”, os convidados apontaram caminhos distintos, mas convergentes no investimento pessoal. Rodrigues defendeu uma orientação baseada em valores espirituais e no auxílio ao próximo. Rute colocou a auto-organização, o autoconhecimento e a avaliação das próprias habilidades e limitações no centro desse processo.
Autoconhecimento e responsabilidade pessoal são apontados como caminhos
Na reta final do Conexão Saúde, o debate se voltou à procura crescente por autoconhecimento em um cenário marcado, segundo os participantes, por conflitos, excesso de informação e dificuldades nas relações pessoais. Rute chamou atenção para a disputa pela atenção provocada pelas redes sociais e comparou comportamentos compulsivos ligados às plataformas digitais e às apostas a outros padrões de dependência. Para ela, memória, atenção, vontade, associação de ideias e discernimento precisam ser exercitados para que o indivíduo consiga avaliar melhor as informações e decisões do cotidiano.
Ao falar de responsabilidade pessoal, a professora defendeu que mudanças coletivas começam por transformações individuais. A proposta inclui observar os próprios comportamentos, reconhecer características que precisam ser modificadas e fortalecer habilidades já desenvolvidas. Ela também apresentou o voluntariado como instrumento de contribuição social e de construção de sentido, inclusive em ações simples, como oferecer companhia a pessoas que enfrentam solidão.
Rodrigues encerrou sua participação recomendando que pessoas que sentem um vazio existencial procurem espaços capazes de ajudá-las a refletir sobre o sentido da vida. Segundo ele, essa busca pode ocorrer em uma igreja, universidade, curso ou outro ambiente que estimule a reflexão. “Procurar encontrar um sentido da vida. Por que estamos vivendo? Por que a vida?”, afirmou.
Rute resumiu sua orientação pela máxima do autoconhecimento. Além de buscar informações e formação, recomendou que o público evite o consumo automático de conteúdos digitais e utilize a internet para ampliar conhecimento. Para ela, investir na própria cognição e na capacidade de analisar fatos pode contribuir para decisões mais equilibradas. A mensagem que encerrou o encontro colocou a transformação individual como ponto de partida: conhecer a si próprio, qualificar habilidades e utilizar esse desenvolvimento para melhorar as relações com quem está ao redor.