A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic — medicamento injetável à base de semaglutida indicado para o tratamento de diabetes e obesidade —, quer passar a fornecer insulina humana para o Sistema Único de Saúde (SUS). A empresa, que mantém uma fábrica em Montes Claros (MG), afirma ter capacidade para fornecer até 125 milhões de unidades entre 2026 e 2028.
Daniel Flentø, diretor de Assuntos Corporativos e Comunicação da Novo Nordisk, afirma que a unidade fabril localizada no interior de Minas tem capacidade para atender uma demanda de aproximadamente 67 milhões de unidades de insulina por ano. A fábrica é responsável por cerca de 25% da insulina produzida globalmente pela companhia. O volume corresponde a aproximadamente 12% de toda a insulina consumida no mundo, segundo a empresa.

A Novo Nordisk aguarda que o Ministério da Saúde abra uma nova licitação para aquisição do insumo. Flentø afirmou que a definição sobre o próximo processo de compra é necessária para que a empresa consiga organizar a produção com antecedência.
“A demora na publicação oficial do edital do pregão tem gerado grande ansiedade operacional na empresa devido à complexidade de planejamento da fábrica. A produção de insulina é complexa e requer programação de longo prazo”, afirmou o executivo ao apresentar a estrutura da fábrica à reportagem, que viajou a Montes Claros a convite da empresa.
Segundo o executivo, a Novo Nordisk disponibilizou capacidade produtiva local para o fornecimento de insulina humana ao SUS entre 2026 e 2028. A utilização dessa capacidade, no entanto, depende da contratação pelo Governo Federal e da previsibilidade necessária para o planejamento da fábrica.

A empresa também afirma que ainda existem dificuldades para que outros fornecedores consigam atender integralmente a demanda do sistema público. “Até o momento, esses parceiros locais não demonstraram capacidade produtiva ou volumes suficientes para abastecer integralmente a demanda de todo o SUS”, disse Flentø.
Ministério da Saúde diz ter contratos ativos
Em junho, o Ministério da Saúde realizou a Audiência Pública nº 3/2026, relacionada à futura aquisição de insulina humana nacional exclusiva para produtos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Procurado, o Ministério da Saúde informou que possui contratos ativos para a oferta de insulinas humanas e análogas no SUS e que esses contratos garantem estoques regulares em todo o país. Segundo a pasta, mais de 56,3 milhões de unidades de insulina foram distribuídas aos estados em 2026.
O Ministério também afirmou que novos processos licitatórios serão realizados conforme a necessidade apresentada e com base em estudos estratégicos realizados pela pasta. A divulgação dos processos, segundo a pasta, é feita pelos canais oficiais do governo federal.
Insulina
Usada no tratamento de pacientes diabéticos, a insulina humana tem estrutura molecular equivalente à produzida naturalmente pelo organismo. Já as insulinas análogas passam por modificações para alterar características como o tempo de ação no organismo.
Entre as insulinas análogas, estão as de ação rápida, utilizadas para controlar a elevação da glicose relacionada às refeições, e as de longa duração, que têm efeito prolongado para manter os níveis de insulina ao longo do dia.
Em julho, o Ministério da Saúde iniciou a distribuição da insulina glargina, uma insulina análoga de longa duração, por meio de uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) com a farmacêutica Biomm e o laboratório público Bio-Manguinhos, da Fiocruz.
A distribuição contempla crianças e adolescentes de 2 anos a menores de 18 anos com diabetes tipo 1 e pessoas com 70 anos ou mais diagnosticadas com diabetes tipo 1 ou tipo 2.
De acordo com as informações apresentadas durante a visita à fábrica, a estratégia deverá alcançar cerca de 160 mil a 170 mil pessoas quando estiver completamente implementada.
A oferta de insulina humana ao SUS também envolve fornecedores contratados pelo governo federal. Atualmente, empresas como GlobalX Pharma e Star Pharma participam do fornecimento por meio de contratação emergencial.
A medida ocorreu após mudanças no mercado internacional e a saída de fornecedores tradicionais da produção de insulinas humanas de baixo custo, entre eles a própria Novo Nordisk, que deixou esse segmento em 2024.
Segundo Flentø, a Novo Nordisk enfrentou dificuldades para atender parte da demanda brasileira em um período anterior. “A Novo Nordisk enfrentou uma ruptura no abastecimento e conseguiu entregar apenas metade do volume de canetas de insulina demandado pelo Ministério da Saúde para o SUS”, afirmou.
De acordo com o executivo, outros fornecedores internacionais também tiveram dificuldades para cumprir contratos, o que aumentou a pressão sobre a produção disponível em diferentes países.
Em 2026, a Novo Nordisk também participou de um pregão para o fornecimento de insulina análoga de ação rápida ao SUS. A empresa venceu a disputa para fornecer o NovoRapid, com contratos previstos para 2026 e 2027.
O medicamento é destinado ao tratamento de pacientes com diabetes mellitus tipo 1 e integra o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (Ceaf).
Diferentemente da insulina glargina, que passou a ser distribuída pela rede pública de saúde, o NovoRapid é disponibilizado por meio das chamadas Farmácias de Alto Custo, mediante solicitação e critérios específicos para acesso ao medicamento.
Fábrica da Novo Nordisk recebe investimentos
A unidade da Novo Nordisk em Montes Claros também passa por um processo de expansão. Segundo a empresa, aproximadamente R$ 6,5 bilhões foram investidos na fábrica nos últimos dois anos.
A maior parte dos recursos é destinada à expansão da estrutura física e ao aumento da capacidade produtiva. O projeto considera o crescimento da demanda mundial por medicamentos e o fornecimento para os mercados público e privado.

A expansão também prevê estrutura para a produção de medicamentos injetáveis à base de semaglutida, princípio ativo utilizado em medicamentos como Ozempic e Wegovy.
Segundo Flentø, a fábrica terá capacidade para produzir medicamentos com a substância, mas ainda não foi concluída a etapa de validação dos processos que vai definir quais produtos serão efetivamente fabricados no Brasil.
Atualmente, os medicamentos à base de semaglutida da Novo Nordisk vendidos no Brasil são produzidos na Dinamarca.
A Novo Nordisk também apresentou uma nova solicitação à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) para avaliar a inclusão do Wegovy no SUS.
O pedido é diferente da solicitação apresentada anteriormente e rejeitada em 2025. A nova proposta prevê critérios mais específicos para o uso do medicamento na rede pública.
A empresa propõe que o tratamento seja destinado a pessoas adultas a partir de 45 anos, com índice de massa corporal (IMC) entre 30 e 40, sem diabetes e com histórico comprovado de infarto.
Atualmente, a Novo Nordisk comercializa no Brasil três medicamentos à base de semaglutida: Ozempic, de aplicação semanal, e Rybelsus, de uso oral diário, indicados para o tratamento do diabetes tipo 2; e Wegovy, de aplicação semanal, indicado para o tratamento da obesidade e do sobrepeso.
*A repórter viajou a Montes Claros a convite da Novo Nordisk.