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Saúde

Enxaqueca é doença neurológica, não dor de cabeça forte, e pode começar antes de a cabeça doer

Náusea, aura, sensibilidade a luz e a som e o medo de novas crises compõem o quadro; a neuromodulação aparece entre os recursos de tratamento
Agora RN
09/09/2026 | 20:49

A crise de enxaqueca pode começar antes de a cabeça doer e continuar cobrando seu preço depois que a dor cede. Náusea, alteração visual, formigamento, sensibilidade a luz, a som e a cheiro transformam tarefa banal em obstáculo e desarrumam o sono, a concentração e a vida do dia a dia.

Setembro é o Mês de Conscientização sobre a Dor, e a fisioterapeuta Kelly Gama aproveita a data para insistir numa distinção que muita gente não faz. Especialista em dor, ela é sócia-fundadora do Centro Vitta, em Natal, e resume assim: enxaqueca não é dor de cabeça mais forte. É doença neurológica, e como tal precisa de diagnóstico e de acompanhamento.

Mulher com as mãos nas têmporas, sentindo dor de cabeça
Imagem ilustrativa de crise de dor de cabeça

“A dor de cabeça é apenas um dos sintomas da enxaqueca. Estamos falando de uma doença que envolve mecanismos neurológicos e genéticos complexos e que, em alguns casos, pode se tornar crônica e incapacitante. Por isso, precisa de diagnóstico e tratamento adequados”, explica.

Convém detalhar o que compõe esse quadro. A face mais conhecida é aquela dor forte que lateja. Mas o episódio pode trazer junto náusea, vômito e uma sensibilidade agressiva a estímulo que venha de fora. Há ainda quem apresente a aura — sintomas neurológicos que podem incluir alteração na visão, formigamento e dificuldade para falar.

Por trás das crises opera uma combinação de mecanismos do sistema nervoso. Conforme Kelly, determinadas redes cerebrais ficam mais excitáveis, enquanto o sistema trigeminovascular, encarregado de transmitir a dor, entra em atividade. Some-se a isso a liberação de substâncias associadas tanto à inflamação neurogênica quanto à sensibilização das vias por onde a dor trafega.

É essa complexidade que explica por que não existe abordagem única servindo a todo mundo. O tratamento precisa pesar quatro coisas: o tipo de enxaqueca, com que frequência as crises vêm, quão intensos são os sintomas e o histórico clínico de cada paciente.

Entre os recursos hoje disponíveis está a neuromodulação não invasiva, técnica que aplica estímulo elétrico para mexer no funcionamento das estruturas nervosas ligadas à percepção da dor. Ela serve tanto como prevenção quanto, em situações específicas, durante a própria crise.

“A neuromodulação pode ser utilizada na prevenção e, em determinados casos, para diminuir os sintomas durante uma crise. Os resultados mais significativos incluem a redução da frequência e da intensidade das crises, a melhora da dor, a retomada de atividades e o ganho de qualidade de vida. Em alguns pacientes, também é possível diminuir a necessidade do uso de medicamentos”, destaca.

A indicação, porém, não é automática. A especialista defende acompanhamento individualizado e integrado entre neurologista e fisioterapeuta que atue na área da dor, levando em conta as características de cada caso.

Parte do cuidado, aliás, está em enxergar o que se passa fora da crise, nos intervalos entre um episódio e outro. Sono, rotina e fatores próprios de cada pessoa podem participar do surgimento ou da piora dos episódios — e conhecer os próprios gatilhos ajuda a manejar a doença.

Essa lógica sustenta o Ressignificador, método que Kelly Gama desenvolveu para pacientes com dor crônica. O programa combina quatro frentes: educar o paciente sobre a própria dor, prescrever exercício a partir de meta funcional, expor a pessoa ao movimento de forma gradual e trabalhar estímulo sensorial e cognitivo. O alvo não é só a intensidade do sintoma: são também os comportamentos que nascem depois de períodos longos de dor.

Há um ciclo conhecido nisso. O medo de disparar uma crise leva a pessoa a se mexer menos e a abandonar atividades, o que produz mais medo, mais inatividade e menos autonomia.

“No caso da enxaqueca, a pessoa também precisa aprender a manejar a condição e entender quais fatores funcionam como gatilhos para o retorno das crises. Não buscamos apenas aliviar um sintoma, mas oferecer recursos para que o paciente participe ativamente do tratamento e volte a realizar atividades que deixou de fazer por causa da dor”, afirma.

Um registro sobre quem fala: Kelly Gama se formou em fisioterapia pela Universidade Potiguar e tem especialização em Dor, em Recursos Cinesioterapêuticos, em Terapia Manual e em Osteopatia, além de formação nos métodos Maitland, Mulligan e McKenzie. São mais de 20 anos de profissão, e ela idealizou também o Centro Vitta Academy.

O Centro Vitta nasceu em 2007, fundado por ela e pelo fisioterapeuta Jorge Ivan. Junta gente de fisioterapia, de medicina, de psicologia, de nutrição e de educação física para atender quem convive com dor de vários tipos — inclusive a crônica e a neuropática. A casa faz avaliação funcional, trabalha educação em dor, monta plano individualizado para problema de coluna e de articulação e oferece Pilates clínico e treinamento funcional clínico.

O endereço é Rua Leonardo Drummond, 1610, no bairro de Lagoa Nova, em Natal. O telefone para informações é (84) 3206-3327, e o perfil no Instagram é @centrovittanatal.