Quem atende nas Unidades de Terapia Intensiva do Rio Grande do Norte pode cruzar os braços, e o motivo é pagamento atrasado. No Monsenhor Walfredo Gurgel, hospital da capital, o Sinmed-RN — sindicato que representa a categoria no estado — avisa que a escassez de profissionais pode chegar ao ponto de desativar uma das UTIs da unidade.
A dívida com os intensivistas do Walfredo Gurgel chegou a acumular meses de atraso, e a estimativa gira em torno de R$ 6 milhões. Havia uma paralisação cogitada para 1º de setembro, que acabou não acontecendo: o Governo do Estado quitou março e abril às vésperas da data. O pagamento aliviou, mas está bem longe de ter regularizado a situação — os repasses cobriram parte do passivo, não o conjunto dele.

Há um detalhe estrutural por trás disso. Parte das escalas das UTIs é preenchida por gente contratada por meio de empresa terceirizada, e não por servidor concursado. Pelas contas que as entidades médicas apresentam, quem é servidor da própria rede cobre algo entre 40% e 50% dos plantões; o restante depende de contratação complementar.
“O atraso é insuportável”
Para Geraldo Ferreira, que preside o Sinmed-RN, o efeito prático do atraso é a debandada: o médico simplesmente vai para onde o pagamento sai em dia. E é essa dificuldade crescente de completar escala que hoje coloca em xeque o funcionamento de uma UTI inteira no Walfredo Gurgel.
“No Walfredo Gurgel, as informações que me foram passadas é que há a possibilidade de desativação de uma das UTIs em razão de falta de profissionais. Por quê? Porque o atraso é insuportável, é intolerável, os profissionais não conseguem sobreviver”, afirmou.
Conforme o dirigente, basta aparecer uma oportunidade com pagamento regular para o profissional deixar o serviço em atraso — e cada saída dessas torna mais difícil fechar as escalas seguintes, num efeito que se acumula.
Não é só o Walfredo
O quadro se repete fora dali. Há outras unidades, na capital e no interior, que igualmente dependem de terceirizados para fechar escala e passam pelo mesmo aperto. Foram citados os hospitais Santa Catarina e Deoclécio Marques, ao lado de serviços espalhados pelo interior potiguar.
Ferreira sustenta que o atraso é generalizado tanto na rede privada quanto na complementar, aquela que presta serviço ao poder público. Na leitura dele, a dificuldade financeira dessas unidades acaba recaindo sobretudo sobre o pagamento de quem está na ponta, atendendo o paciente.
Não é a primeira vez, aliás, que a conta atrasada se transforma em ameaça de parada. Na última semana de julho, os hospitais privados que têm convênio com o Governo do Estado anunciaram que suspenderiam o atendimento prestado pelo Sistema Único de Saúde por falta de repasse. A situação só se normalizou quando o Executivo liberou pouco mais de R$ 17 milhões, pagos em duas parcelas.
Falta material, falta remédio, falta gente
Atraso de pagamento, contudo, não é a única queixa que chega aos conselhos. Marcos Antônio Tavares Jácome da Costa Britto, que é vice-presidente do Cremern, o conselho regional de medicina do estado, chamou atenção para problemas estruturais nos hospitais da rede. O que mais se ouve dos profissionais, segundo ele, é a falta de material e de medicamento — um problema que dá trégua em alguns períodos e logo depois retorna.
“O principal motivo de reclamação dos profissionais que lá trabalham, desses hospitais maiores do Estado, é sempre a mesma situação: materiais e medicamentos”, afirmou o dirigente do conselho. Ele lembrou episódios recentes ocorridos em Mossoró e afirmou que a irregularidade do abastecimento segue entre as maiores dificuldades enfrentadas pelas unidades da rede. “Falta de insumos, aí a regularidade do abastecimento passa por crise, melhora um pouco, depois volta a piorar. Essa é a principal reclamação, além de falta de pessoal”, declarou.
A terceirização, no diagnóstico do conselho, tapa buraco mas não resolve o fundo do problema. “A complementação de pessoal via terceirização, muitas vezes resolve, em parte, uma escala, mas deixa sempre a desejar e o motivo de reclamação é contínuo”, disse Britto — ou seja, a solução emergencial já virou rotina sem deixar de ser insuficiente.
No fim dessa linha está o paciente. Britto apontou as filas de espera por procedimentos, em diferentes especialidades, como um dos reflexos mais visíveis de tudo isso. “Enquanto existir essas filas de gente aguardando para ter a sua assistência digna, isso ainda vai prejudicar muitas pessoas”, declarou.