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Saúde

Medula óssea do crânio mostra atividade imunológica maior em quem tem dor crônica, aponta Harvard

O estudo comparou exames de 125 adultos com dor persistente e de 22 sem dor, mas não estabelece se a alteração encontrada é causa ou consequência
Agora RN
09/09/2026 | 20:49

A tentativa de entender por que uma dor persiste meses ou anos depois de instalada levou pesquisadores a olhar para uma região pouco explorada do corpo: a medula óssea que fica dentro do crânio. Um estudo novo identificou ali sinais de atividade imunológica aumentada entre pessoas que convivem com dor crônica. E sugere mais: que essa atividade pode ter relação tanto com a intensidade da dor quanto com sintomas de ansiedade e de depressão.

Quem liderou a pesquisa foram cientistas da Harvard Medical School. Ela saiu na terça-feira 2, publicada pela revista Science Translational Medicine.

Paciente é preparado para exame de ressonância magnética
Imagem ilustrativa — exame de ressonância magnética

O desenho do trabalho foi o seguinte. Foram examinadas imagens de 125 adultos que vivem com dor crônica. Desse total, 88 conviviam com dor nas costas e os outros 37 tinham osteoartrite no joelho. O que apareceu nesses exames foi então comparado com o de 22 pessoas que não apresentavam dor alguma.

Nos participantes com dor persistente, apareceram níveis mais altos de uma proteína conhecida como TSPO, espalhados por várias áreas dessa medula, com concentração maior nas regiões frontal e parietal. Essa proteína funciona como marcador da atividade de determinadas células do sistema imunológico.

E havia proporção nisso: quanto mais forte o sinal captado no exame, mais a pessoa relatava dor intensa e mais o problema atrapalhava o cotidiano dela. A pesquisa também encontrou ligação com sintomas de ansiedade e de depressão.

O interesse dos cientistas por essa medula em particular cresceu nos últimos anos, à medida que se compreendeu melhor como ela conversa com o cérebro. Como toda medula óssea do organismo, ela ajuda a produzir as células de defesa. O que a distingue das demais é a vizinhança: está colada ao sistema nervoso central, e não espalhada por ossos distantes do cérebro.

Trabalhos anteriores já haviam encontrado pequenos canais unindo essa medula às membranas que envolvem o cérebro — uma rota direta por onde célula e sinal imunológico transitam. O que o novo estudo levanta é a possibilidade de essa comunicação também estar metida nos mecanismos da dor crônica.

A hipótese funciona assim: sinais que partem do cérebro estimulariam as células imunológicas alojadas no crânio. Essas células, por sua vez, entrariam em processos inflamatórios — e seriam esses processos a ajudar a manter a dor de pé, mesmo depois que a causa original já passou.

Havia ainda uma verificação a fazer. Para checar se o padrão visto nos exames aparecia também diretamente no tecido, os pesquisadores recorreram a amostras cedidas por dois doadores. Um deles carregava histórico de dor crônica, e nesse caso a medula trouxe mais que o dobro da quantidade de células vista na amostra de controle — além de proporção maior das células ligadas à TSPO.

São só dois crânios, e o número de amostras de tecido é pequeno demais para sustentar qualquer conclusão ampla. Os autores se limitam a registrar que o achado aponta na mesma direção dos sinais captados nos exames dos participantes vivos.

Falta, no entanto, responder o essencial: a atividade imunológica vista ali ajuda a produzir e a esticar a dor, ou é apenas o efeito de um cérebro bombardeado sem trégua por estímulo doloroso? O trabalho não chega a estabelecer essa relação de causa e efeito.

Tampouco se pode dizer que a medula do crânio tenha sido descoberta como uma nova origem da dor crônica. O que existe é uma associação e um possível mecanismo biológico, ambos ainda por investigar em grupos maiores.

A distinção importa. A dor persistente é fenômeno complexo, movido por mecanismos neurológicos, imunológicos e também por condições clínicas e psicossociais diversas. Achar alteração numa região do organismo não é, sozinho, explicação para o fato de a dor não ir embora.

Ainda assim, a descoberta abre uma frente de pesquisa nova. Os próximos estudos terão de investigar de que modo o cérebro conversa com as células imunológicas dessa medula — e se mexer nesse processo produz algum efeito sobre a dor.

Confirmada a relação, uma parte do corpo que até pouco tempo atrás recebia atenção mínima nos estudos sobre dor pode virar alvo de tratamento. Por enquanto, ela é sobretudo uma pista nova para um problema que segue desafiando tanto o paciente quanto o pesquisador.